Os tipos de sementes são definidos por critérios diferentes: número de cotilédones (monocotiledôneas e dicotiledôneas), presença de endosperma (albuminosas e exalbuminosas), tipo de reserva (amiláceas, oleaginosas e proteicas), tolerância à secagem (ortodoxas e recalcitrantes), dormência, origem genética (crioula, híbrida, transgênica) e categoria legal (básica, C1, C2, S1 e S2).
Abaixo estão a tabela que resume todas as classificações com exemplos, as partes da semente, as categorias previstas na legislação brasileira e uma lista de exemplos de sementes por grupo de cultura.
O que é semente
Na botânica, semente é o óvulo fecundado e desenvolvido das plantas com flores e das gimnospermas. Ela reúne o embrião (a futura planta), uma reserva de alimento e uma casca protetora. O surgimento da semente permitiu que as plantas se dispersassem para longe e sobrevivessem a períodos desfavoráveis até encontrar condições para germinar, além de ampliar a variabilidade genética pela reprodução sexuada.
Na legislação, o conceito é mais amplo. A Lei nº 10.711/2003, que criou o Sistema Nacional de Sementes e Mudas, define semente como o material de reprodução vegetal de qualquer espécie, de reprodução sexuada ou assexuada, que tenha finalidade específica de semeadura. É essa finalidade que separa a semente do grão: o mesmo feijão pode ser semente, se foi produzido para plantio sob as regras do MAPA, ou grão, se vai para o consumo.
Tabela dos tipos de sementes
| Critério | Tipos | O que define | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Número de cotilédones | Monocotiledôneas e dicotiledôneas | Um ou dois cotilédones no embrião | Milho, arroz e trigo (mono); feijão, soja e girassol (dico) |
| Presença de endosperma | Albuminosas e exalbuminosas | Reserva guardada no endosperma ou nos cotilédones | Milho, mamona e café (albuminosas); feijão, soja e ervilha (exalbuminosas) |
| Tipo de reserva | Amiláceas, aleuro-amiláceas, oleaginosas, aleuro-oleaginosas e córneas | Composto que predomina na reserva: amido, proteína, óleo ou hemicelulose | Milho (amilácea), feijão (aleuro-amilácea), girassol (oleaginosa), soja (aleuro-oleaginosa), café (córnea) |
| Tolerância à secagem | Ortodoxas, intermediárias e recalcitrantes | Capacidade de sobreviver à desidratação e ao armazenamento a frio | Soja e milho (ortodoxas); café (intermediária); araucária e seringueira (recalcitrantes) |
| Dormência | Não dormentes e dormentes (física, fisiológica ou combinada) | Se germinam logo que encontram água, oxigênio e temperatura adequados | Leguminosas de casca dura (dormência física) |
| Origem genética | Crioulas, de polinização aberta, híbridas e transgênicas | Como a cultivar foi obtida e mantida | Milho crioulo, milho híbrido, soja tolerante a herbicida |
| Categoria legal | Genética, básica, C1, C2, S1 e S2 | Etapa da cadeia de multiplicação e se passou por certificação | Semente C1 de soja comprada com certificado |
Uma mesma semente se encaixa em vários critérios ao mesmo tempo. A soja, por exemplo, é dicotiledônea, exalbuminosa, aleuro-oleaginosa e ortodoxa, e no mercado pode ser vendida como semente C1, C2, S1 ou S2.
Partes da semente

Toda semente tem três partes básicas. As estruturas do embrião correspondem às primeiras estruturas da planta depois da germinação.
- Tegumento: a casca. Protege o embrião, regula a entrada de água e oxigênio e está ligado a alguns tipos de dormência.
- Embrião: formado pela radícula, que dá origem à raiz primária; pelo hipocótilo, região de transição entre raiz e caule; pela plúmula ou gema apical, que forma a parte aérea; e pelos cotilédones, as folhas embrionárias.
- Tecido de reserva: pode ser o endosperma ou os próprios cotilédones, que armazenam o alimento usado até a plântula fazer fotossíntese.
Sementes monocotiledôneas e dicotiledôneas
As monocotiledôneas têm um cotilédone. Nas gramíneas, como milho, arroz, trigo e sorgo, ele é chamado de escutelo e absorve as reservas do endosperma durante a germinação; uma bainha, o coleóptilo, protege a plúmula até ela sair do solo. As dicotiledôneas têm dois cotilédones, como feijão, soja, girassol, café e eucalipto.
Sementes albuminosas e exalbuminosas
Nas albuminosas, o endosperma continua presente na semente madura e guarda a maior parte da reserva. É o caso do milho e dos demais cereais, mas também de dicotiledôneas como a mamona e o café. Nas exalbuminosas, o endosperma é consumido durante a formação do embrião e a reserva passa para os cotilédones, que ficam grossos. Feijão, soja, ervilha e amendoim são exemplos: por isso se partem facilmente em duas metades.
A divisão não coincide exatamente com mono e dico: os cereais, que são monocotiledôneas, são albuminosos, mas há dicotiledôneas dos dois tipos.
Tipos de reserva das sementes
- Amiláceas: o amido predomina. Exemplos: milho, trigo, arroz.
- Aleuro-amiláceas: amido e teor alto de proteína. Exemplos: feijão, ervilha.
- Oleaginosas: a reserva principal é óleo. Exemplos: girassol, mamona, gergelim.
- Aleuro-oleaginosas: óleo e proteína em quantidades altas. Exemplos: soja, amendoim.
- Córneas: reserva de hemiceluloses na parede das células do endosperma, que fica duro. Exemplos: café e algumas palmeiras.
O tipo de reserva influencia o armazenamento: sementes oleaginosas se deterioram mais rápido em ambiente quente e úmido e são guardadas com teor de água mais baixo que as amiláceas.
Sementes ortodoxas, intermediárias e recalcitrantes
Essa classificação diz se a semente pode ser secada e guardada por muito tempo. Ela decide como uma espécie é conservada em bancos de germoplasma e como a semente é armazenada no comércio.
| Tipo | Tolerância à secagem | Armazenamento | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Ortodoxas | Suportam secagem até cerca de 5% de umidade | Longo prazo em ambiente seco e frio; bancos de germoplasma a −18 °C ou −20 °C | Soja, milho, feijão, trigo, jatobá |
| Intermediárias | Suportam secagem moderada, por volta de 10% a 12% | Não toleram armazenamento a baixas temperaturas depois de secas | Café, jenipapo |
| Recalcitrantes | Morrem abaixo de um teor crítico de umidade, que varia de 15% a 50% conforme a espécie | Curto prazo, úmidas e sem congelamento; a maioria é guardada com mais de 30% de água | Araucária (pinhão), seringueira, mangueira, castanha-do-brasil, ingá, mangaba, cagaita |
As sementes da araucária, por exemplo, têm em média 46,3% de umidade, e o embrião perde a viabilidade quando o teor de água cai a 37%, segundo a Embrapa Florestas. Por isso pinhões não podem ser secados e guardados como grãos de soja.
Para descobrir o comportamento de uma espécie, a Embrapa descreve um teste simples: secar as sementes até 12% de umidade e testar a germinação. Se a maioria morrer, a semente é recalcitrante. Se sobreviver, seca-se até cerca de 5% e armazena-se a −18 °C por 90 dias; se a maioria ainda germinar, ela é ortodoxa. Resultados intermediários indicam comportamento intermediário.

No dia a dia da produção, o armazenamento de sementes ortodoxas depende de teor de água e temperatura baixos. A Embrapa indica, de modo geral, de 10% a 13% de umidade para guardar sementes por cerca de 8 meses, com valores menores para as oleaginosas.
Tipos de dormência em sementes
Depois de madura, a semente fica em quiescência: metabolismo baixo por falta de água. Uma semente apenas quiescente germina assim que recebe água, oxigênio e temperatura adequados. A semente dormente não germina mesmo nessas condições, até que um bloqueio interno ou externo seja superado. A dormência espalha a germinação no tempo e evita que todas as plântulas nasçam de uma vez em época ruim.
- Dormência física (tegumentar): a casca é impermeável à água, por camadas de células compactas ou substâncias como suberina e lignina. É comum em leguminosas e em espécies pioneiras. Supera-se com escarificação mecânica (lixa, abrasão), escarificação química (ácido, em laboratório) ou imersão em água quente.
- Dormência fisiológica: o bloqueio está no embrião ou em substâncias inibidoras, como o ácido abscísico e compostos fenólicos. Pode ser superada com frio úmido (estratificação), luz, lavagem dos inibidores ou reguladores de crescimento.
- Dormência combinada: casca impermeável e embrião dormente ao mesmo tempo; exige os dois tratamentos.
Nas grandes culturas, o melhoramento selecionou cultivares com pouca dormência, para que a lavoura nasça uniforme. Em espécies florestais e nativas, a superação da dormência é etapa obrigatória na produção de mudas. Para ver as etapas da germinação em uma gramínea, consulte o post sobre a germinação do milho.
Tipos de sementes pela origem genética
Sementes crioulas
São sementes de variedades tradicionais ou locais, mantidas e selecionadas por agricultores ao longo de gerações, sem passar por programas formais de melhoramento. A Lei nº 10.711/2003 reconhece a “cultivar local, tradicional ou crioula” desenvolvida por agricultores familiares, assentados e indígenas e proíbe restringir sua inclusão em programas públicos de distribuição ou troca de sementes. Segundo a Embrapa, elas carregam adaptação a condições locais e são importantes para a segurança alimentar e para a conservação de recursos genéticos.
Sementes de polinização aberta
Vêm de variedades em que a planta é polinizada livremente. O agricultor pode guardar parte da colheita para plantar e a lavoura seguinte mantém as características da variedade, desde que não haja cruzamento com outras variedades próximas.
Sementes híbridas
Resultam do cruzamento controlado entre linhagens diferentes. A primeira geração (F1) apresenta vigor híbrido: mais produtividade e uniformidade que os pais. Se o grão colhido for replantado, a geração seguinte perde parte desse vigor e fica desuniforme, por isso a semente híbrida é comprada a cada safra. Milho, sorgo e muitas hortaliças usam híbridos.
Sementes transgênicas
Vêm de cultivares que receberam um ou mais genes por engenharia genética, como resistência a insetos ou tolerância a herbicidas. No Brasil, cada evento precisa ser aprovado pela CTNBio, conforme a Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/2005). Uma semente pode ser híbrida e transgênica ao mesmo tempo, como ocorre no milho. Saiba mais sobre como essas cultivares são obtidas no post sobre melhoramento genético.
Categorias de sementes: genética, básica, C1, C2, S1 e S2
O Decreto nº 10.586/2020, que regulamenta a Lei nº 10.711/2003, define seis categorias de sementes (artigo 32). Elas seguem a cadeia de multiplicação: cada categoria nasce da reprodução da anterior.
| Categoria | Origem | Certificação | Observação |
|---|---|---|---|
| Semente genética | Obtida no processo de melhoramento, sob controle do obtentor, introdutor ou mantenedor | Não; dispensada a inscrição de campo | Ponto de partida, com identidade e pureza genética da cultivar |
| Semente básica | Reprodução da semente genética (ou da própria básica, se o MAPA autorizar) | Sim | Garante identidade genética e pureza varietal |
| Semente certificada de primeira geração (C1) | Reprodução da semente básica ou genética | Sim | Vendida ao produtor com certificado |
| Semente certificada de segunda geração (C2) | Reprodução da C1, da básica ou da genética | Sim | Vendida ao produtor com certificado |
| Semente não certificada de primeira geração (S1) | Reprodução da C1, C2, básica ou genética | Não, mas exige inscrição de campo e padrões do MAPA | Origem genética comprovada |
| Semente não certificada de segunda geração (S2) | Reprodução da S1, C1, C2, básica ou genética | Não, mas exige inscrição de campo e padrões do MAPA | Última geração permitida a partir de semente com origem comprovada |
Para produzir e vender semente de qualquer categoria, a cultivar precisa estar inscrita no Registro Nacional de Cultivares (RNC). Se a cultivar for protegida, a produção depende da autorização do detentor dos direitos.
Fora dessa cadeia está a semente para uso próprio: o agricultor pode guardar parte da colheita para plantar exclusivamente na safra seguinte, em área própria ou sob sua posse, na quantidade compatível com os parâmetros da cultivar. Essa semente não pode ser vendida.
Uso de semente certificada no Brasil
Estimativas da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), com base na safra 2024/25, mostram que o uso de semente fora do sistema formal ainda é alto em várias culturas: cerca de 29% das sementes de soja não são certificadas, 25% no trigo, 35% no algodão, 38% no arroz e 85% no feijão. Em milho e sorgo, em que predominam os híbridos, a taxa fica perto de 3%. Semente de origem conhecida, com germinação e vigor testados e tratamento de sementes adequado, é o primeiro passo para um estande uniforme.
Exemplos de sementes
- Cereais: milho, arroz, trigo, sorgo, aveia, cevada.
- Leguminosas de grão: feijão, soja, ervilha, grão-de-bico, lentilha, amendoim.
- Oleaginosas: girassol, gergelim, linhaça, mamona, canola.
- Hortaliças: alface, tomate, cenoura, abóbora, pimentão.
- Frutíferas: abacate, manga, maracujá, mamão, jabuticaba.
- Florestais e nativas: eucalipto, pinus, araucária, ipê, jatobá.
- Forrageiras e plantas de cobertura: braquiária, guandu, crotalária, aveia-preta.
Perguntas frequentes
Quais são os tipos de sementes?
As sementes são classificadas pelo número de cotilédones (mono e dicotiledôneas), pela presença de endosperma (albuminosas e exalbuminosas), pela reserva (amiláceas, oleaginosas, proteicas), pela tolerância à secagem (ortodoxas, intermediárias e recalcitrantes), pela dormência, pela origem genética (crioula, híbrida, transgênica) e pela categoria legal (genética, básica, C1, C2, S1 e S2).
Qual a diferença entre semente e grão?
A diferença está na finalidade. Pela Lei nº 10.711/2003, semente é o material de reprodução com finalidade específica de semeadura, produzido sob as normas do MAPA, com cultivar registrada e padrões de germinação e pureza. Grão é o produto colhido para consumo ou indústria. Biologicamente podem ser a mesma estrutura.
O que são sementes ortodoxas e recalcitrantes?
Ortodoxas toleram secagem até cerca de 5% de umidade e armazenamento a frio por longos períodos, como soja, milho e feijão. Recalcitrantes morrem quando perdem água abaixo de um teor crítico, por isso são guardadas úmidas e por pouco tempo, como araucária, seringueira e mangueira. O café tem comportamento intermediário.
O que é semente C1, C2, S1 e S2?
São categorias do Decreto nº 10.586/2020. C1 e C2 são sementes certificadas de primeira e segunda geração, produzidas a partir de semente básica ou genética com certificação. S1 e S2 são sementes não certificadas de primeira e segunda geração, com origem genética comprovada, inscrição de campo e padrões do MAPA.
O que é semente crioula?
Semente crioula vem de variedades tradicionais ou locais, selecionadas e mantidas por agricultores familiares, comunidades tradicionais e indígenas ao longo de gerações. A Lei nº 10.711/2003 reconhece essas cultivares e proíbe restringir sua inclusão em programas públicos de troca e distribuição de sementes. Elas guardam adaptação local e diversidade genética.
Quais são exemplos de sementes?
Exemplos de sementes são milho, arroz, trigo e sorgo (cereais); feijão, soja, ervilha e amendoim (leguminosas); girassol, gergelim e linhaça (oleaginosas); alface, tomate e abóbora (hortaliças); abacate e manga (frutíferas); e eucalipto, araucária e ipê (florestais).
Sementes e carreira
Classificar sementes, entender dormência e armazenamento e conhecer as regras de produção e certificação são a base do trabalho em empresas sementeiras, laboratórios de análise e programas de melhoramento. Esses temas são aprofundados na pós-graduação em Tecnologia e Produção de Sementes da AgroPós.
Fontes consultadas
- Lei nº 10.711, de 5 de agosto de 2003 (Sistema Nacional de Sementes e Mudas)
- Decreto nº 10.586, de 18 de dezembro de 2020
- Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Sementes: o produtor pergunta, a Embrapa responde (conservação e armazenamento)
- Embrapa Florestas. Comportamento fisiológico, secagem e armazenamento de sementes florestais nativas (Circular Técnica 127)
- Embrapa Cerrados. Armazenamento e conservação de sementes de espécies do Cerrado (Documentos 265)
- Embrapa Amazônia Oriental. Comunicado Técnico 60 (comportamento de sementes de frutíferas)
- Estimativas da Abrasem para a safra 2024/25, divulgadas em agosto de 2026




