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Agrícola

Percevejo na lavoura: espécies, danos e controle na soja

Percevejo na lavoura: tabela de espécies, culturas, danos e nível de ação da Embrapa, cálculo com pano-de-batida e como diferenciar do percevejo-de-cama.

AgroPósConteúdo próprio Atualizado em 12 de outubro de 2026 12 min de leitura
Percevejo na lavoura: espécies, danos e controle na soja

Percevejo é um inseto da ordem Hemiptera que se alimenta sugando, com um aparelho bucal em forma de estilete. Na agricultura, os percevejos que sugam plantas, como o percevejo-marrom (Euschistus heros), o verde e o verde-pequeno, são as pragas mais importantes da soja: atacam vagens e grãos e reduzem produtividade e qualidade das sementes.

A seguir estão as espécies que atacam soja, milho, arroz e eucalipto, com tabela de cultura, dano e nível de ação da Embrapa, um exemplo de cálculo com o pano-de-batida e as formas de controle. Se você chegou aqui por causa de picadas em casa, a diferença para o percevejo-de-cama está no fim do texto.

O que é percevejo: características do inseto

Percevejo é o nome popular dos insetos da subordem Heteroptera, dentro da ordem Hemiptera. Todos têm o mesmo jeito de comer: introduzem os estiletes no alimento e sugam o conteúdo. O que muda é o alimento.

  • Fitófagos: sugam seiva, grãos, sementes ou raízes. É o grupo das pragas agrícolas.
  • Predadores: sugam outros insetos. Na soja, espécies como Podisus nigrispinus se alimentam de lagartas e ajudam no controle biológico.
  • Hematófagos: sugam sangue. É o caso do percevejo-de-cama e do barbeiro.

Os percevejos de lavoura têm asas e voam entre as plantas e entre culturas. Muitos liberam um cheiro forte quando são incomodados, característica que ajuda a reconhecê-los no campo.

Ciclo de vida do percevejo

O percevejo não passa por fase de larva nem de pupa. O ciclo tem três fases: ovo, ninfa (com cinco ínstares) e adulto. As ninfas são parecidas com o adulto, mas não têm asas e mudam de cor a cada troca de pele.

Segundo a Embrapa Soja, as ninfas completam o desenvolvimento em cerca de 25 dias, os adultos começam a se acasalar por volta de 10 dias depois da última muda e vivem, em média, de 50 a 120 dias. São 3 a 6 gerações por ano, conforme a região, e cada fêmea põe de 120 a 170 ovos. A tabela compara as três espécies principais em soja a 25 °C.

Parâmetro (soja, 25 °C) Percevejo-marrom (E. heros) Percevejo-verde (N. viridula) Percevejo-verde-pequeno (P. guildinii)
Ovo até adulto 31,3 dias 41,4 dias 27,9 dias
Longevidade do adulto 116,8 dias 52,8 dias 53,6 dias
Ovos por fêmea 167,8 150,1 123,3
Ovos por postura 4,6 75,6 15,1
Onde põe os ovos Folhas Folhas Vagens, em fileiras duplas

Fonte dos valores: Embrapa Soja, Circular Técnica 24 (1999), com médias de vários estudos.

Principais percevejos-praga: espécies, culturas e danos

Na soja, o complexo de percevejos sugadores de grãos é formado principalmente pela família Pentatomidae, e a espécie que predomina hoje é o percevejo-marrom. A tabela reúne as espécies mais citadas pela Embrapa e o nível de ação, quando ele existe.

Espécie Culturas principais Dano Nível de ação (Embrapa)
Percevejo-marrom (Euschistus heros) Soja; na entressafra, girassol, guandu e carrapicho-de-carneiro Suga vagens e grãos: grãos chochos, menor germinação e vigor, atraso na maturação Soja, de R3 em diante: 2 percevejos por metro (grão) ou 1 por metro (semente), somando adultos e ninfas maiores que 0,4 cm de todas as espécies
Percevejo-verde (Nezara viridula) Soja; muito polífago (desmódio, nabo-bravo, guandu, mamona) Suga vagens e grãos, com os mesmos danos Soja, de R3 em diante: entra na soma do pano-de-batida (2 percevejos/m para grão, 1/m para semente)
Percevejo-verde-pequeno (Piezodorus guildinii) Soja, guandu, crotalárias e anileiras Considerado o mais prejudicial à qualidade das sementes e à retenção foliar Soja, de R3 em diante: entra na soma do pano-de-batida (2 percevejos/m para grão, 1/m para semente)
Percevejo-barriga-verde (Dichelops melacanthus e D. furcatus) Soja (secundário), milho e trigo No milho, perfura plântulas e causa amarelecimento e lesões nas folhas Soja: entra na soma do pano-de-batida. Milho: não há nível de ação único publicado; siga a recomendação regional
Edessa meditabunda Soja e solanáceas Suga caules e vagens; dano em geral menor Soja, de R3 em diante: entra na soma do pano-de-batida (2 percevejos/m para grão, 1/m para semente)
Percevejo-castanho-da-raiz (Scaptocoris castanea) Soja, algodão, milho, arroz, feijão, cana e pastagens Suga raízes; plantas murcham, amarelam e morrem em reboleiras Não há nível de ação no MIP-Soja
Percevejo-do-colmo (Tibraca limbativentris) Arroz “Coração-morto” na fase vegetativa e “panícula-branca” na reprodutiva Controle quando houver 1 adulto por m²
Percevejo-bronzeado (Thaumastocoris peregrinus) Eucalipto Desfolha parcial ou total e menor área de fotossíntese; em ataques fortes, morte de árvores Manejo com o parasitoide de ovos Cleruchoides noackae

Percevejo-marrom (Euschistus heros)

Raro nos anos 1970, hoje é o mais abundante e ocorre em todas as regiões produtoras de soja. Na soja, completa três gerações de novembro a abril. Depois da colheita, passa cerca de sete meses em dormência sob folhas e palha, sem se alimentar, o que o protege de parasitoides e predadores e explica sua abundância. Há mais detalhes no texto sobre o percevejo-marrom.

Percevejo-verde (Nezara viridula)

Tem distribuição mundial e é mais abundante nas regiões mais frias, como o Sul do país. É muito polífago e, onde o inverno é ameno, se reproduz o ano todo em plantas como desmódio, nabo-bravo, mostarda e guandu. No Sul, passa o inverno escondido sob cascas de árvores e muda de verde para castanho-arroxeado.

Percevejo-verde-pequeno (Piezodorus guildinii)

Ocorre do Sul ao Norte e Nordeste. Põe os ovos pretos direto nas vagens e, entre as três espécies principais, é o que mais prejudica a qualidade das sementes e provoca retenção foliar. Fora da soja, vive em anileiras, crotalárias e guandu.

Percevejo-barriga-verde (Dichelops spp.)

Mede de 9 a 11 mm, tem dorso castanho a acinzentado, abdome verde e a cabeça termina em duas pontas. Na soja aparece em número menor, mas no milho safrinha ataca as plântulas, fase em que o milho é mais sensível: introduz o estilete na região do colo para sugar a seiva, com provável injeção de toxinas. O tema é detalhado no texto sobre o percevejo do milho.

Percevejos de outras culturas

O percevejo-castanho vive no solo, suga raízes e ataca em reboleiras, com surtos mais intensos no Brasil Central e em solos arenosos. No arroz, o percevejo-do-colmo fica escondido entre os colmos perto do solo e pode causar perdas de até 90% da produção em ataques fortes. No eucalipto, o percevejo-bronzeado, originário da Austrália, é a principal praga exótica da cultura no país.

Danos do percevejo na soja

Os percevejos estão na lavoura desde o período vegetativo, mas o prejuízo começa quando surgem as vagens. Adultos e ninfas a partir do 3º ínstar sugam diretamente os grãos em formação. Os danos descritos pela Embrapa Soja são:

  • aborto de vagens e de grãos nos ataques iniciais;
  • grãos menores, enrugados, chochos e mais escuros;
  • queda de germinação e de vigor das sementes e alteração nos teores de óleo e proteína;
  • entrada de doenças como a mancha-fermento, transmitida durante a alimentação;
  • retenção foliar e haste verde, que atrasam a maturação e atrapalham a colheita.

A população segue um padrão ao longo do ciclo. Os percevejos colonizam a soja no fim do período vegetativo ou na floração (R1 a R2), começam a se reproduzir quando aparecem as vagens (R3), crescem no período crítico de R4 a R5.1 e chegam ao pico no fim do enchimento de grãos (R6). Para acompanhar essas fases, veja os estádios fenológicos da soja.

Monitoramento com pano-de-batida e nível de ação

O MIP-Soja da Embrapa indica vistorias pelo menos uma vez por semana com o pano-de-batida: um pano claro de 1 m de comprimento por 1,5 m de largura, preso a dois cabos. Ele é colocado entre as fileiras, as plantas de 1 m de fileira são sacudidas sobre o pano e os insetos que caem são contados.

  • Faça 6, 8 ou 10 batidas em talhões de 1 a 10 ha, 11 a 30 ha e 31 a 100 ha, respectivamente.
  • Em áreas maiores, divida em talhões de até 100 ha ou mantenha pelo menos 1 ponto a cada 10 ha.
  • Amostre nas horas mais frescas do dia, quando os percevejos se movem menos, e reforce as bordas no início da colonização.
  • Conte adultos e ninfas grandes de todas as espécies. O folder MIP-Soja de 2023 considera ninfas maiores que 0,4 cm; publicações anteriores da Embrapa usavam 0,3 cm.

Média de percevejos por metro = total de percevejos (adultos + ninfas grandes) ÷ número de batidas. Nível de ação na soja, de R3 em diante: 2 percevejos/m em lavoura de grão e 1 percevejo/m em lavoura de semente.

Exemplo resolvido: um talhão de 25 ha pede 8 batidas. Os panos tiveram 2, 1, 3, 2, 1, 4, 2 e 1 percevejos, num total de 16. A média é 16 ÷ 8 = 2,0 percevejos por metro. Em lavoura de grão, a população atingiu o nível de ação e o controle se justifica. Em lavoura de semente, cujo nível de ação é 1 por metro, a mesma média já estaria no dobro do limite, o que mostra por que campos de semente pedem vistorias mais atentas.

A Embrapa reforça que o controle nunca deve ser preventivo nem feito “de carona” em outra aplicação. Antes de R3, o percevejo-marrom não causa dano à soja.

Como controlar percevejos na lavoura

O manejo dos percevejos combina monitoramento, inimigos naturais, práticas culturais e inseticidas usados só quando necessário, dentro do manejo integrado de pragas.

Controle biológico

Os parasitoides de ovos são os inimigos naturais mais importantes dos percevejos da soja. A Embrapa registrou cerca de 20 espécies de microvespas, com destaque para Trissolcus basalis e Telenomus podisi. Em lavouras com uso criterioso de inseticidas, o parasitismo de ovos varia de 30% a 70% ao longo da safra e pode chegar a 80% entre outubro e dezembro. Percevejos predadores, como Podisus nigrispinus, também contribuem. Saiba mais sobre controle biológico.

Controle químico

Há poucos mecanismos de ação disponíveis para percevejos, o que limita a rotação de produtos. A Embrapa também registra resistência comprovada da praga a inseticidas organofosforados. Por isso:

  • use apenas produtos registrados para a praga na cultura, consultados no Agrofit, com receituário agronômico e seguindo a bula;
  • reserve os produtos de percevejo para quando o nível de ação for atingido, a partir de R3;
  • prefira inseticidas seletivos aos inimigos naturais e alterne mecanismos de ação.

Práticas culturais

  • Época de semeadura e ciclo: cultivares precoces costumam escapar do dano, mas multiplicam percevejos que migram para lavouras tardias. Evite semeaduras muito antecipadas ou muito tardias na região.
  • Entressafra: plantas como guandu, carrapicho-de-carneiro, desmódio e nabo-bravo abrigam percevejos entre uma safra e outra. Conhecer e manejar essas plantas ajuda a entender e reduzir a população que chega à soja; veja o texto sobre o carrapicho.
  • Estacas-armadilha: estacas com estopa tratada com inseticida, colocadas acima do dossel e de preferência nas margens da lavoura, onde a infestação costuma começar, atraem percevejos e ajudam a detectar a chegada da praga.

Percevejo de lavoura ou percevejo-de-cama: como diferenciar

Muita gente procura “percevejo” por causa de picadas em casa. Nesse caso, o inseto é o percevejo-de-cama (Cimex lectularius), que não tem relação com as pragas agrícolas.

Ciclo de vida do percevejo-de-cama: ovo, cinco estádios jovens e adulto de corpo achatado e marrom-avermelhado

Segundo a Vigilância em Saúde de São Paulo, o adulto mede cerca de 6 mm, não tem asas, se esconde em frestas de camas e móveis, sai à noite para sugar sangue e sobrevive mais de 6 meses sem se alimentar. As picadas aparecem em áreas expostas, como rosto, pescoço, braços e mãos. Os sinais de infestação são manchas de sangue e pontinhos escuros de fezes na roupa de cama. Para controle em casa, procure a vigilância de zoonoses do seu município.

Outro percevejo que suga sangue é o barbeiro (triatomíneo), que pode transmitir o parasita da doença de Chagas. Se encontrar um em casa, leve o inseto ao Posto de Informação de Triatomíneos ou à vigilância em saúde do município para identificação.

Característica Percevejos-praga da lavoura Percevejo-de-cama
Alimento Seiva, grãos, sementes ou raízes Sangue humano
Asas no adulto Sim, voam entre plantas Não
Onde vive Lavouras e plantas hospedeiras Frestas de camas, colchões e móveis
Quem orienta o controle Assistência técnica, com receituário agronômico Vigilância em saúde e empresas de controle de pragas urbanas

Perguntas frequentes

Percevejo é inseto?

Sim. O percevejo é um inseto da ordem Hemiptera, subordem Heteroptera. Tem seis pernas, antenas e aparelho bucal sugador em forma de estilete, com o qual perfura plantas, outros insetos ou a pele, conforme a espécie. Os percevejos de lavoura são fitófagos e sugam grãos e seiva; o percevejo-de-cama e o barbeiro sugam sangue.

Percevejo tem asa?

Os percevejos-praga adultos da lavoura têm asas e voam entre plantas e entre lavouras, o que explica a colonização da soja a partir das bordas. As ninfas ainda não têm asas. Já o percevejo-de-cama adulto não tem asas: ele se espalha em roupas, malas, colchões e móveis levados de um lugar infestado para outro.

Qual é o percevejo mais comum na soja?

O percevejo-marrom (Euschistus heros) é hoje a espécie predominante na soja brasileira e ocorre em todas as regiões produtoras. Ele divide a lavoura com o percevejo-verde, mais comum no Sul, e com o verde-pequeno, de ampla distribuição. No monitoramento, as espécies são somadas para comparar com o nível de ação da Embrapa.

Quando controlar o percevejo na soja?

Pelo MIP-Soja da Embrapa, o controle químico só se justifica a partir do início da formação das vagens (R3), quando a média do pano-de-batida chega a 2 percevejos por metro em lavoura de grão ou 1 por metro em lavoura de semente. A contagem soma adultos e ninfas grandes de todas as espécies-praga.

Percevejo do mato ou de jardim faz mal?

Os percevejos encontrados em plantas do jardim ou do mato são, em geral, fitófagos ou predadores e não se alimentam de sangue. Podem soltar cheiro forte quando incomodados e causar dano às plantas. Os que picam pessoas são o percevejo-de-cama, que vive em camas e móveis, e o barbeiro, que deve ser levado à vigilância em saúde.

Percevejo-de-cama vem da lavoura?

Não. O percevejo-de-cama (Cimex lectularius) é outro inseto, sem asas, que vive dentro de casas e hotéis e se alimenta de sangue humano. Ele chega em roupas, malas e móveis usados. Os percevejos de soja e milho se alimentam de plantas e não infestam camas.

Fontes consultadas

Reconhecer a espécie, contar certo no pano-de-batida e decidir a hora de aplicar é o que separa um controle eficiente de gasto com inseticida e resistência. Esses conteúdos de monitoramento, controle biológico e manejo de resistência fazem parte da pós-graduação em Fitossanidade da AgroPós, com entrada o ano todo.

Conteúdo AgroPósEscrito pela equipe da AgroPós

Todos os artigos do blog são produzidos pela própria AgroPós, com base no material das nossas pós-graduações nas áreas agrícola, florestal e ambiental.

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