Percevejo é um inseto da ordem Hemiptera que se alimenta sugando, com um aparelho bucal em forma de estilete. Na agricultura, os percevejos que sugam plantas, como o percevejo-marrom (Euschistus heros), o verde e o verde-pequeno, são as pragas mais importantes da soja: atacam vagens e grãos e reduzem produtividade e qualidade das sementes.
A seguir estão as espécies que atacam soja, milho, arroz e eucalipto, com tabela de cultura, dano e nível de ação da Embrapa, um exemplo de cálculo com o pano-de-batida e as formas de controle. Se você chegou aqui por causa de picadas em casa, a diferença para o percevejo-de-cama está no fim do texto.
O que é percevejo: características do inseto
Percevejo é o nome popular dos insetos da subordem Heteroptera, dentro da ordem Hemiptera. Todos têm o mesmo jeito de comer: introduzem os estiletes no alimento e sugam o conteúdo. O que muda é o alimento.
- Fitófagos: sugam seiva, grãos, sementes ou raízes. É o grupo das pragas agrícolas.
- Predadores: sugam outros insetos. Na soja, espécies como Podisus nigrispinus se alimentam de lagartas e ajudam no controle biológico.
- Hematófagos: sugam sangue. É o caso do percevejo-de-cama e do barbeiro.
Os percevejos de lavoura têm asas e voam entre as plantas e entre culturas. Muitos liberam um cheiro forte quando são incomodados, característica que ajuda a reconhecê-los no campo.
Ciclo de vida do percevejo
O percevejo não passa por fase de larva nem de pupa. O ciclo tem três fases: ovo, ninfa (com cinco ínstares) e adulto. As ninfas são parecidas com o adulto, mas não têm asas e mudam de cor a cada troca de pele.
Segundo a Embrapa Soja, as ninfas completam o desenvolvimento em cerca de 25 dias, os adultos começam a se acasalar por volta de 10 dias depois da última muda e vivem, em média, de 50 a 120 dias. São 3 a 6 gerações por ano, conforme a região, e cada fêmea põe de 120 a 170 ovos. A tabela compara as três espécies principais em soja a 25 °C.
| Parâmetro (soja, 25 °C) | Percevejo-marrom (E. heros) | Percevejo-verde (N. viridula) | Percevejo-verde-pequeno (P. guildinii) |
|---|---|---|---|
| Ovo até adulto | 31,3 dias | 41,4 dias | 27,9 dias |
| Longevidade do adulto | 116,8 dias | 52,8 dias | 53,6 dias |
| Ovos por fêmea | 167,8 | 150,1 | 123,3 |
| Ovos por postura | 4,6 | 75,6 | 15,1 |
| Onde põe os ovos | Folhas | Folhas | Vagens, em fileiras duplas |
Fonte dos valores: Embrapa Soja, Circular Técnica 24 (1999), com médias de vários estudos.
Principais percevejos-praga: espécies, culturas e danos
Na soja, o complexo de percevejos sugadores de grãos é formado principalmente pela família Pentatomidae, e a espécie que predomina hoje é o percevejo-marrom. A tabela reúne as espécies mais citadas pela Embrapa e o nível de ação, quando ele existe.
| Espécie | Culturas principais | Dano | Nível de ação (Embrapa) |
|---|---|---|---|
| Percevejo-marrom (Euschistus heros) | Soja; na entressafra, girassol, guandu e carrapicho-de-carneiro | Suga vagens e grãos: grãos chochos, menor germinação e vigor, atraso na maturação | Soja, de R3 em diante: 2 percevejos por metro (grão) ou 1 por metro (semente), somando adultos e ninfas maiores que 0,4 cm de todas as espécies |
| Percevejo-verde (Nezara viridula) | Soja; muito polífago (desmódio, nabo-bravo, guandu, mamona) | Suga vagens e grãos, com os mesmos danos | Soja, de R3 em diante: entra na soma do pano-de-batida (2 percevejos/m para grão, 1/m para semente) |
| Percevejo-verde-pequeno (Piezodorus guildinii) | Soja, guandu, crotalárias e anileiras | Considerado o mais prejudicial à qualidade das sementes e à retenção foliar | Soja, de R3 em diante: entra na soma do pano-de-batida (2 percevejos/m para grão, 1/m para semente) |
| Percevejo-barriga-verde (Dichelops melacanthus e D. furcatus) | Soja (secundário), milho e trigo | No milho, perfura plântulas e causa amarelecimento e lesões nas folhas | Soja: entra na soma do pano-de-batida. Milho: não há nível de ação único publicado; siga a recomendação regional |
| Edessa meditabunda | Soja e solanáceas | Suga caules e vagens; dano em geral menor | Soja, de R3 em diante: entra na soma do pano-de-batida (2 percevejos/m para grão, 1/m para semente) |
| Percevejo-castanho-da-raiz (Scaptocoris castanea) | Soja, algodão, milho, arroz, feijão, cana e pastagens | Suga raízes; plantas murcham, amarelam e morrem em reboleiras | Não há nível de ação no MIP-Soja |
| Percevejo-do-colmo (Tibraca limbativentris) | Arroz | “Coração-morto” na fase vegetativa e “panícula-branca” na reprodutiva | Controle quando houver 1 adulto por m² |
| Percevejo-bronzeado (Thaumastocoris peregrinus) | Eucalipto | Desfolha parcial ou total e menor área de fotossíntese; em ataques fortes, morte de árvores | Manejo com o parasitoide de ovos Cleruchoides noackae |
Percevejo-marrom (Euschistus heros)
Raro nos anos 1970, hoje é o mais abundante e ocorre em todas as regiões produtoras de soja. Na soja, completa três gerações de novembro a abril. Depois da colheita, passa cerca de sete meses em dormência sob folhas e palha, sem se alimentar, o que o protege de parasitoides e predadores e explica sua abundância. Há mais detalhes no texto sobre o percevejo-marrom.
Percevejo-verde (Nezara viridula)
Tem distribuição mundial e é mais abundante nas regiões mais frias, como o Sul do país. É muito polífago e, onde o inverno é ameno, se reproduz o ano todo em plantas como desmódio, nabo-bravo, mostarda e guandu. No Sul, passa o inverno escondido sob cascas de árvores e muda de verde para castanho-arroxeado.
Percevejo-verde-pequeno (Piezodorus guildinii)
Ocorre do Sul ao Norte e Nordeste. Põe os ovos pretos direto nas vagens e, entre as três espécies principais, é o que mais prejudica a qualidade das sementes e provoca retenção foliar. Fora da soja, vive em anileiras, crotalárias e guandu.
Percevejo-barriga-verde (Dichelops spp.)
Mede de 9 a 11 mm, tem dorso castanho a acinzentado, abdome verde e a cabeça termina em duas pontas. Na soja aparece em número menor, mas no milho safrinha ataca as plântulas, fase em que o milho é mais sensível: introduz o estilete na região do colo para sugar a seiva, com provável injeção de toxinas. O tema é detalhado no texto sobre o percevejo do milho.
Percevejos de outras culturas
O percevejo-castanho vive no solo, suga raízes e ataca em reboleiras, com surtos mais intensos no Brasil Central e em solos arenosos. No arroz, o percevejo-do-colmo fica escondido entre os colmos perto do solo e pode causar perdas de até 90% da produção em ataques fortes. No eucalipto, o percevejo-bronzeado, originário da Austrália, é a principal praga exótica da cultura no país.
Danos do percevejo na soja
Os percevejos estão na lavoura desde o período vegetativo, mas o prejuízo começa quando surgem as vagens. Adultos e ninfas a partir do 3º ínstar sugam diretamente os grãos em formação. Os danos descritos pela Embrapa Soja são:
- aborto de vagens e de grãos nos ataques iniciais;
- grãos menores, enrugados, chochos e mais escuros;
- queda de germinação e de vigor das sementes e alteração nos teores de óleo e proteína;
- entrada de doenças como a mancha-fermento, transmitida durante a alimentação;
- retenção foliar e haste verde, que atrasam a maturação e atrapalham a colheita.
A população segue um padrão ao longo do ciclo. Os percevejos colonizam a soja no fim do período vegetativo ou na floração (R1 a R2), começam a se reproduzir quando aparecem as vagens (R3), crescem no período crítico de R4 a R5.1 e chegam ao pico no fim do enchimento de grãos (R6). Para acompanhar essas fases, veja os estádios fenológicos da soja.
Monitoramento com pano-de-batida e nível de ação
O MIP-Soja da Embrapa indica vistorias pelo menos uma vez por semana com o pano-de-batida: um pano claro de 1 m de comprimento por 1,5 m de largura, preso a dois cabos. Ele é colocado entre as fileiras, as plantas de 1 m de fileira são sacudidas sobre o pano e os insetos que caem são contados.
- Faça 6, 8 ou 10 batidas em talhões de 1 a 10 ha, 11 a 30 ha e 31 a 100 ha, respectivamente.
- Em áreas maiores, divida em talhões de até 100 ha ou mantenha pelo menos 1 ponto a cada 10 ha.
- Amostre nas horas mais frescas do dia, quando os percevejos se movem menos, e reforce as bordas no início da colonização.
- Conte adultos e ninfas grandes de todas as espécies. O folder MIP-Soja de 2023 considera ninfas maiores que 0,4 cm; publicações anteriores da Embrapa usavam 0,3 cm.
Média de percevejos por metro = total de percevejos (adultos + ninfas grandes) ÷ número de batidas. Nível de ação na soja, de R3 em diante: 2 percevejos/m em lavoura de grão e 1 percevejo/m em lavoura de semente.
Exemplo resolvido: um talhão de 25 ha pede 8 batidas. Os panos tiveram 2, 1, 3, 2, 1, 4, 2 e 1 percevejos, num total de 16. A média é 16 ÷ 8 = 2,0 percevejos por metro. Em lavoura de grão, a população atingiu o nível de ação e o controle se justifica. Em lavoura de semente, cujo nível de ação é 1 por metro, a mesma média já estaria no dobro do limite, o que mostra por que campos de semente pedem vistorias mais atentas.
A Embrapa reforça que o controle nunca deve ser preventivo nem feito “de carona” em outra aplicação. Antes de R3, o percevejo-marrom não causa dano à soja.
Como controlar percevejos na lavoura
O manejo dos percevejos combina monitoramento, inimigos naturais, práticas culturais e inseticidas usados só quando necessário, dentro do manejo integrado de pragas.
Controle biológico
Os parasitoides de ovos são os inimigos naturais mais importantes dos percevejos da soja. A Embrapa registrou cerca de 20 espécies de microvespas, com destaque para Trissolcus basalis e Telenomus podisi. Em lavouras com uso criterioso de inseticidas, o parasitismo de ovos varia de 30% a 70% ao longo da safra e pode chegar a 80% entre outubro e dezembro. Percevejos predadores, como Podisus nigrispinus, também contribuem. Saiba mais sobre controle biológico.
Controle químico
Há poucos mecanismos de ação disponíveis para percevejos, o que limita a rotação de produtos. A Embrapa também registra resistência comprovada da praga a inseticidas organofosforados. Por isso:
- use apenas produtos registrados para a praga na cultura, consultados no Agrofit, com receituário agronômico e seguindo a bula;
- reserve os produtos de percevejo para quando o nível de ação for atingido, a partir de R3;
- prefira inseticidas seletivos aos inimigos naturais e alterne mecanismos de ação.
Práticas culturais
- Época de semeadura e ciclo: cultivares precoces costumam escapar do dano, mas multiplicam percevejos que migram para lavouras tardias. Evite semeaduras muito antecipadas ou muito tardias na região.
- Entressafra: plantas como guandu, carrapicho-de-carneiro, desmódio e nabo-bravo abrigam percevejos entre uma safra e outra. Conhecer e manejar essas plantas ajuda a entender e reduzir a população que chega à soja; veja o texto sobre o carrapicho.
- Estacas-armadilha: estacas com estopa tratada com inseticida, colocadas acima do dossel e de preferência nas margens da lavoura, onde a infestação costuma começar, atraem percevejos e ajudam a detectar a chegada da praga.
Percevejo de lavoura ou percevejo-de-cama: como diferenciar
Muita gente procura “percevejo” por causa de picadas em casa. Nesse caso, o inseto é o percevejo-de-cama (Cimex lectularius), que não tem relação com as pragas agrícolas.

Segundo a Vigilância em Saúde de São Paulo, o adulto mede cerca de 6 mm, não tem asas, se esconde em frestas de camas e móveis, sai à noite para sugar sangue e sobrevive mais de 6 meses sem se alimentar. As picadas aparecem em áreas expostas, como rosto, pescoço, braços e mãos. Os sinais de infestação são manchas de sangue e pontinhos escuros de fezes na roupa de cama. Para controle em casa, procure a vigilância de zoonoses do seu município.
Outro percevejo que suga sangue é o barbeiro (triatomíneo), que pode transmitir o parasita da doença de Chagas. Se encontrar um em casa, leve o inseto ao Posto de Informação de Triatomíneos ou à vigilância em saúde do município para identificação.
| Característica | Percevejos-praga da lavoura | Percevejo-de-cama |
|---|---|---|
| Alimento | Seiva, grãos, sementes ou raízes | Sangue humano |
| Asas no adulto | Sim, voam entre plantas | Não |
| Onde vive | Lavouras e plantas hospedeiras | Frestas de camas, colchões e móveis |
| Quem orienta o controle | Assistência técnica, com receituário agronômico | Vigilância em saúde e empresas de controle de pragas urbanas |
Perguntas frequentes
Percevejo é inseto?
Sim. O percevejo é um inseto da ordem Hemiptera, subordem Heteroptera. Tem seis pernas, antenas e aparelho bucal sugador em forma de estilete, com o qual perfura plantas, outros insetos ou a pele, conforme a espécie. Os percevejos de lavoura são fitófagos e sugam grãos e seiva; o percevejo-de-cama e o barbeiro sugam sangue.
Percevejo tem asa?
Os percevejos-praga adultos da lavoura têm asas e voam entre plantas e entre lavouras, o que explica a colonização da soja a partir das bordas. As ninfas ainda não têm asas. Já o percevejo-de-cama adulto não tem asas: ele se espalha em roupas, malas, colchões e móveis levados de um lugar infestado para outro.
Qual é o percevejo mais comum na soja?
O percevejo-marrom (Euschistus heros) é hoje a espécie predominante na soja brasileira e ocorre em todas as regiões produtoras. Ele divide a lavoura com o percevejo-verde, mais comum no Sul, e com o verde-pequeno, de ampla distribuição. No monitoramento, as espécies são somadas para comparar com o nível de ação da Embrapa.
Quando controlar o percevejo na soja?
Pelo MIP-Soja da Embrapa, o controle químico só se justifica a partir do início da formação das vagens (R3), quando a média do pano-de-batida chega a 2 percevejos por metro em lavoura de grão ou 1 por metro em lavoura de semente. A contagem soma adultos e ninfas grandes de todas as espécies-praga.
Percevejo do mato ou de jardim faz mal?
Os percevejos encontrados em plantas do jardim ou do mato são, em geral, fitófagos ou predadores e não se alimentam de sangue. Podem soltar cheiro forte quando incomodados e causar dano às plantas. Os que picam pessoas são o percevejo-de-cama, que vive em camas e móveis, e o barbeiro, que deve ser levado à vigilância em saúde.
Percevejo-de-cama vem da lavoura?
Não. O percevejo-de-cama (Cimex lectularius) é outro inseto, sem asas, que vive dentro de casas e hotéis e se alimenta de sangue humano. Ele chega em roupas, malas e móveis usados. Os percevejos de soja e milho se alimentam de plantas e não infestam camas.
Fontes consultadas
- Embrapa Soja: Percevejos da soja e seu manejo (Circular Técnica 24)
- Embrapa Soja: folder MIP-Soja, níveis de ação (2023)
- Embrapa Soja: Circular Técnica 154, percevejo-marrom (2019)
- Embrapa Soja: Caderneta de campo para monitoramento de insetos na soja, 2ª edição (2021)
- Embrapa Soja: ocorrência, danos e estratégias de manejo de percevejos na soja
- Embrapa: percevejo-barriga-verde no milho
- Embrapa Arroz e Feijão: resposta do arroz irrigado ao percevejo-do-colmo
- Embrapa Florestas: percevejo-bronzeado do eucalipto
- Prefeitura de São Paulo (Covisa): percevejos-de-cama
- Ministério da Saúde: doença de Chagas
Reconhecer a espécie, contar certo no pano-de-batida e decidir a hora de aplicar é o que separa um controle eficiente de gasto com inseticida e resistência. Esses conteúdos de monitoramento, controle biológico e manejo de resistência fazem parte da pós-graduação em Fitossanidade da AgroPós, com entrada o ano todo.




