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Agrícola

Lagarta-de-fogo: espécies, sintomas da queimadura, o que fazer e controle

Lagarta de fogo: tabela para reconhecer as espécies, sintomas da queimadura, o que fazer segundo o Ministério da Saúde e números de acidentes até 2023.

AgroPósConteúdo próprio Atualizado em 12 de outubro de 2026 11 min de leitura
Lagarta-de-fogo: espécies, sintomas da queimadura, o que fazer e controle

Lagarta-de-fogo é o nome popular das lagartas de mariposas que têm cerdas urticantes e provocam queimadura quando tocam a pele. No Brasil, os acidentes vêm de dois grupos: as lagartas cabeludas (família Megalopygidae, como Megalopyge lanata) e as espinhudas (família Saturniidae), entre elas a Lonomia, a única capaz de causar hemorragia grave.

Se você acabou de encostar em uma lagarta, lave o local com água fria e sabão, faça compressa fria e procure o serviço de saúde mais próximo. Abaixo estão as espécies, os sintomas, o passo a passo dos primeiros socorros conforme o Ministério da Saúde e o manejo da lagarta-de-fogo em pomares e lavouras.

O que é a lagarta-de-fogo

A lagarta é a fase jovem de borboletas e mariposas (ordem Lepidoptera). As que queimam são lagartas de mariposas: só a fase larval de algumas espécies tem cerdas ligadas a glândulas de veneno. O contato com essas cerdas causa o erucismo, que o povo chama de “queimadura” por causa da dor em queimação.

O nome muda de região para região. O Ministério da Saúde registra taturana, marandová, mandorová, mondrová, ruga e oruga como sinônimos de lagarta. Também aparecem “bicho-cabeludo”, “taturana-de-fogo” e “lagarta que queima”. Por isso, “lagarta-de-fogo” não identifica uma espécie só: descreve qualquer lagarta urticante.

Na agricultura, essas lagartas comem folhas de frutíferas e árvores. Na saúde, o problema é o acidente, que costuma acontecer quando a pessoa apoia a mão em um tronco ou colhe frutas sem olhar a folhagem.

Tipos de lagarta-de-fogo: cabeludas, espinhudas e mariposas

Para saber o risco, o que importa é o grupo da lagarta, não a cor. A tabela resume como reconhecer cada um, com base no Ministério da Saúde e na Secretaria da Saúde do Paraná.

Grupo Exemplos Aparência Comportamento Risco para a pessoa
Lagartas cabeludas (Megalopygidae) Megalopyge lanata e outras 1 a 8 cm, “pelos” longos e sedosos (castanho, branco, negro ou róseo) que escondem cerdas curtas com veneno Geralmente solitárias, não agressivas Dor intensa e reação local, que costuma regredir em 24 horas
Lagartas espinhudas (Saturniidae) Lonomia obliqua e outras Lonomia Espinhos ramificados, parecidos com pequenos pinheiros, em tons esverdeados que imitam a planta onde vivem Vivem em grupos, pousadas em troncos Dor local e, horas depois, possível síndrome hemorrágica; pode exigir soro antilonômico
Mariposas adultas de Hylesia Fêmeas de Hylesia Mariposa com cerdas urticantes no abdome da fêmea O problema é a fase adulta, não a lagarta Dermatite com coceira (lepidopterismo)
Lagartas lisas, sem cerdas Mandarová-da-mandioca (Erinnyis ello) Corpo liso, com um apêndice no fim do abdome Comem folhas em grande quantidade Não estão entre as causadoras de erucismo citadas pelo Ministério da Saúde

Lagartas cabeludas (Megalopygidae)

São as mais comuns nos acidentes. Os “pelos” macios que aparecem por cima são inofensivos; o veneno está nas cerdas curtas e pontiagudas escondidas por baixo. A Megalopyge lanata, citada em fichas técnicas como lagarta-de-fogo, é branca com pelos castanho-avermelhados e vira uma mariposa de corpo preto e rosa, com asas brancas e cerca de 70 mm de envergadura.

Lagarta cabeluda preta com faixas brancas e cabeça avermelhada sobre folha verde, exemplo de bicho-cabeludo

Nem toda lagarta cabeluda é perigosa, mas não dá para saber só de olhar. A regra prática é não tocar em nenhuma lagarta com pelos ou espinhos, de qualquer cor: preta, amarela, vermelha ou branca.

Lagartas espinhudas e a Lonomia obliqua

Na família Saturniidae está o gênero Lonomia, o único com relevância para a saúde pública. Segundo o Ministério da Saúde, existem cerca de 13 espécies de Lonomia no Brasil, quatro delas capazes de causar acidentes graves. A principal é a Lonomia obliqua, endêmica do Sul do Brasil e de regiões do leste, como Espírito Santo e Bahia.

As lagartas de Lonomia ficam em grupo nos troncos, com cores que se confundem com a casca ou com musgo. Quem não conhece o animal pode confundi-lo com musgo; o Instituto Butantan cita como pista o acúmulo de fezes das lagartas na base dos troncos. Segundo o Ministério da Saúde, quanto mais lagartas são esmagadas no contato, mais grave tende a ser o acidente.

Mariposas que também queimam

Na Hylesia, quem causa irritação é a mariposa adulta: as fêmeas têm cerdas urticantes no abdome que, em contato com a pele, causam dermatite com coceira. Esse quadro é chamado de lepidopterismo e é diferente do erucismo provocado pelas lagartas.

Onde a lagarta-de-fogo aparece e quais plantas ataca

As lagartas urticantes são mais comuns no verão. O boletim do Ministério da Saúde com dados de 2019 a 2023 mostra mais casos em fevereiro e março no Sudeste e de novembro a janeiro no Sul, época em que a fase de lagarta coincide com as férias e com mais atividades ao ar livre.

A Megalopyge lanata é polífaga. As culturas mais citadas como hospedeiras são abacate, café, citros, goiaba, manga, pera, pêssego e roseira. A lagarta come a folhagem e, em ataques fortes, atrasa o desenvolvimento da planta.

A Lonomia obliqua vivia em matas nativas, mas o desmatamento e a redução de predadores naturais levaram a espécie para pomares e áreas urbanas. O Ministério da Saúde cita goiabeira, nespereira e abacateiro entre as árvores frutíferas em que ela é encontrada. Isso explica por que a colheita de frutas e a poda são situações comuns de acidente, inclusive para quem trabalha no campo.

Sintomas da queimadura de lagarta-de-fogo

A dor aparece na hora do contato. Na maioria dos casos, o quadro fica restrito ao local e melhora em até 24 horas. O Ministério da Saúde descreve os sintomas em dois níveis.

Sintomas no local do contato

  • dor imediata em queimação, que pode irradiar para o braço ou a perna;
  • vermelhidão e inchaço;
  • pequenas lesões avermelhadas em pontos, no desenho das cerdas;
  • íngua dolorosa perto da região atingida;
  • bolhas e necrose superficial, mais raras.

Sinais de alerta de acidente com Lonomia

Algumas horas depois do contato com a Lonomia, podem surgir dor de cabeça, mal-estar, náusea e dor abdominal. Em seguida, aparecem os sinais de alteração da coagulação:

  • sangramento na gengiva ou no nariz;
  • manchas roxas na pele sem pancada;
  • sangue na urina, no vômito ou na tosse, que indicam maior gravidade.

Nos casos graves, o acidente pode evoluir para lesão renal aguda e hemorragia. Como esses sinais demoram a aparecer, a pessoa deve ser avaliada mesmo que só sinta dor no início.

O que fazer em caso de acidente com lagarta-de-fogo

Os passos abaixo seguem o Ministério da Saúde, a Secretaria da Saúde do Paraná e o Instituto Butantan. Eles aliviam a dor até o atendimento e não substituem a avaliação médica.

  1. Afaste a pessoa da planta e não esprema nem coce o local.
  2. Lave a região com água fria ou gelada e sabão.
  3. Faça compressas frias ou geladas para aliviar a dor.
  4. Procure o serviço de saúde mais próximo. Em emergência, ligue para o SAMU (192). Para orientação, o Disque-Intoxicação da Anvisa atende no 0800 722 6001, de graça.
  5. Fotografe a lagarta para ajudar na identificação. Não tente capturá-la com as mãos.
  6. Informe ao médico a hora do acidente, a parte do corpo atingida e se havia várias lagartas juntas.

O que não fazer

  • não usar torniquete ou garrote;
  • não furar, cortar, queimar nem espremer o local;
  • não passar folhas, pó de café, terra, urina, álcool, querosene, fumo ou ervas;
  • não fechar o local com curativo;
  • não dar bebida alcoólica à pessoa.

Tratamento e soro antilonômico

O diagnóstico é feito pela história do acidente e pelo exame da pessoa. Não existe exame de rotina que detecte o veneno no sangue; o tempo de coagulação ajuda a avaliar a gravidade e a acompanhar o tratamento.

Nos acidentes leves, com quadro só local e coagulação normal, o tratamento é para a dor. Quando há alteração da coagulação ou sangramento, o médico avalia a aplicação do soro antilonômico, indicado para casos moderados e graves por Lonomia. O Brasil é o único país que produz esse soro, fabricado exclusivamente pelo Instituto Butantan. O soro fica em unidades de referência: a secretaria estadual de saúde informa onde há estoque na sua região.

Acidentes com lagarta-de-fogo no Brasil: números de 2019 a 2023

O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de junho de 2024 reuniu as notificações de erucismo no Sinan entre 2019 e 2023.

Indicador (Brasil, 2019 a 2023) Resultado
Acidentes por lagartas notificados 26.962
Óbitos notificados 12, dos quais 3 por Lonomia
Regiões com mais casos Sudeste (48,6%) e Sul (25,0%)
Estado com mais notificações Minas Gerais (7.740 casos)
Crianças de até 9 anos 20,5% dos casos, a faixa etária mais atingida
Zona de ocorrência 63,1% urbana e 31,8% rural
Parte do corpo atingida mãos (46,5%), braços (20,5%) e pés (13,4%)
Atendimento em até 3 horas 74,8% dos casos
Incidência no país em 2023 3,51 casos por 100 mil habitantes

Os números mostram que a lagarta-de-fogo raramente mata, mas o risco não é zero. Os óbitos por Lonomia foram todos classificados como graves, e a principal complicação associada à morte é a lesão renal aguda.

Como controlar a lagarta-de-fogo em pomares e lavouras

O manejo segue a lógica do manejo integrado de pragas: identificar a espécie, monitorar e só intervir quando houver dano ou risco às pessoas.

Monitoramento e identificação

Vistorie troncos, ramos e o chão sob as copas, procurando folhas roídas, fezes e grupos de lagartas. Em pomares com histórico de acidentes, marque as árvores e avise quem faz colheita e poda. A identificação correta muda a conduta: uma lagarta cabeluda isolada é um problema de folhagem, enquanto uma colônia de Lonomia é um risco de saúde.

Controle químico e biológico

Para a Megalopyge lanata, há inseticidas registrados para algumas culturas. A escolha do produto, a dose e o intervalo de segurança dependem de receituário agronômico e da bula, e só valem produtos registrados para a praga na cultura, conforme o sistema Agrofit do Ministério da Agricultura. Em pomares com fauna de inimigos naturais, prefira produtos seletivos e aplicação localizada; veja mais sobre o controle biológico e sobre o receituário agronômico.

Colônias de Lonomia: chame a vigilância

Ao encontrar um grupo de Lonomia, não tente remover as lagartas por conta própria. O Instituto Butantan orienta acionar o Centro de Controle de Zoonoses do município: a coleta precisa de equipe treinada e as lagartas recolhidas abastecem a produção do soro antilonômico.

Prevenção de acidentes no campo e em casa

  • Olhe troncos, folhas e galhos antes de apoiar a mão, colher frutas ou podar.
  • Use luvas ao fazer jardinagem, colheita ou trabalho em mata; em atividades rurais, camisa de manga longa, calça e botas.
  • Ensine as crianças a não tocar em lagartas, já que elas são as mais atingidas.
  • Mantenha quintal e pomar limpos de entulho e lixo, que servem de abrigo.
  • Se encontrar colônias de Lonomia perto de casa ou da escola, avise a vigilância do município.

Para conhecer as lagartas que são pragas de lavoura, veja também o texto sobre lagartas na agricultura.

Perguntas frequentes

Lagarta-de-fogo pode matar?

Pode, mas é raro. Entre 2019 e 2023, o Ministério da Saúde registrou 12 óbitos em quase 27 mil acidentes por lagartas, três deles por Lonomia, o gênero que causa hemorragia. A maior parte dos casos é leve. O risco aumenta quando o atendimento demora, por isso a orientação é procurar o serviço de saúde logo após o contato.

Lagarta-de-fogo vira borboleta?

Não. As lagartas que queimam são a fase jovem de mariposas, e não de borboletas. Depois de crescer, a lagarta forma um casulo e se transforma em mariposa. No caso da Megalopyge lanata, o adulto é uma mariposa de corpo preto e rosa com asas brancas. Na Hylesia, a própria mariposa adulta tem cerdas que irritam a pele.

Taturana preta é venenosa?

Taturana é outro nome popular para lagarta, e a cor não indica se ela é perigosa. Lagartas cabeludas pretas, amarelas ou vermelhas podem ter cerdas com veneno escondidas sob os pelos. Trate qualquer lagarta com pelos ou espinhos como urticante: não toque e, em caso de contato, lave com água fria e procure atendimento.

Quanto tempo dura a queimadura de lagarta-de-fogo?

Nos acidentes comuns, a dor, a vermelhidão e o inchaço costumam regredir em cerca de 24 horas, segundo o Ministério da Saúde. Nos acidentes com Lonomia, os sintomas de sangramento podem começar horas depois do contato, mesmo quando a dor já passou. Por isso, a avaliação médica é necessária mesmo que a queimadura pareça leve.

O que passar na queimadura de lagarta?

Lave com água fria ou gelada e sabão e faça compressas frias para aliviar a dor. Não passe pó de café, pasta de dente, álcool, urina, querosene, ervas ou folhas, e não feche o local com curativo. Remédios para dor e o soro antilonômico, quando necessários, são indicados pelo médico no serviço de saúde.

Mandruvá queima?

Depende da lagarta. Mandruvá, mandorová e mondrová são nomes populares usados para várias lagartas. As que queimam têm cerdas urticantes, como as cabeludas da família Megalopygidae e as espinhudas da família Saturniidae. O mandarová-da-mandioca, de corpo liso, é praga de lavoura e não aparece entre as causadoras de acidentes citadas pelo Ministério da Saúde.

Fontes consultadas

Identificar a lagarta certa, saber quando ela é praga e quando é risco à saúde e escolher o controle adequado faz parte do trabalho de quem atua com proteção de plantas. Esses temas, do monitoramento ao uso correto de inseticidas e ao controle biológico, são estudados na pós-graduação em Fitossanidade da AgroPós.

Conteúdo AgroPósEscrito pela equipe da AgroPós

Todos os artigos do blog são produzidos pela própria AgroPós, com base no material das nossas pós-graduações nas áreas agrícola, florestal e ambiental.

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