Celulose é o polímero natural formado por milhares de moléculas de glicose ligadas em cadeia, principal componente da parede celular das plantas. Na indústria, o nome também designa a polpa de fibras extraída da madeira, sobretudo de eucalipto e pinus, usada para fazer papel, papel higiênico, fraldas, embalagens e tecidos como a viscose.
Abaixo estão a estrutura química e a fórmula, uma tabela com os tipos de celulose de mercado, o passo a passo do processo kraft, os números de produção e exportação do Brasil em 2024 e 2025 e as fábricas que entraram ou vão entrar em operação.

O que é celulose
A celulose é um carboidrato do grupo dos polissacarídeos. Cada cadeia é formada por unidades de glicose unidas por ligações glicosídicas do tipo β-1,4, o que deixa a molécula longa, linear e sem ramificações. É a molécula orgânica mais abundante da natureza, porque está presente em todas as plantas, das gramíneas às árvores.
As cadeias vizinhas se prendem umas às outras por ligações de hidrogênio e formam feixes chamados microfibrilas. Nesses feixes há trechos muito ordenados (regiões cristalinas) e trechos menos organizados (regiões amorfas). É essa arquitetura que dá à fibra vegetal resistência à tração e insolubilidade em água.
Estrutura e fórmula da celulose
A unidade que se repete na cadeia é a glicose anidra, isto é, a glicose que perdeu uma molécula de água ao se ligar à vizinha. Por isso a fórmula da celulose é escrita como um polímero:
Fórmula da celulose: (C6H10O5)n, em que n é o grau de polimerização (número de unidades de glicose na cadeia).
Massa molar da unidade: 6 × 12,011 + 10 × 1,008 + 5 × 15,999 ≈ 162,1 g/mol
Exemplo resolvido: uma cadeia com grau de polimerização n = 1.000 tem massa molar de aproximadamente 1.000 × 162,1 = 162.100 g/mol, ou cerca de 162 kg/mol. Se o cozimento e o branqueamento quebrarem essa cadeia pela metade (n = 500), a massa cai para cerca de 81 kg/mol, e a fibra perde resistência. É por isso que as fábricas controlam a degradação da celulose em cada etapa.

De onde vem a celulose
Toda planta produz celulose, mas a quantidade varia. Na madeira de folhosas, como o eucalipto, a celulose responde por 40% a 50% da massa seca, ao lado de 25% a 30% de hemiceluloses e 18% a 25% de lignina. Nas coníferas, como o pinus, a faixa é de 45% a 50% de celulose, 30% a 35% de hemiceluloses e 25% a 35% de lignina, segundo o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Também há celulose no algodão (a fibra do capulho é quase celulose pura), no bambu, no bagaço de cana, no sisal, na juta e na palha de cereais. Mesmo assim, a celulose industrial do Brasil vem praticamente toda de árvores plantadas: o eucalipto, a árvore mais plantada do país, e o pinus, base da celulose de fibra longa.
Qual a função da celulose
Na planta, a celulose dá rigidez e sustentação à parede celular, o que permite que caules e troncos fiquem de pé e resistam ao vento. No corpo humano, ela não é digerida, porque não produzimos a enzima que quebra a ligação β-1,4; por isso funciona como fibra alimentar. Ruminantes, como bois e ovelhas, aproveitam a celulose graças aos microrganismos do rúmen.
Celulose de mercado: a polpa que vira papel
Quando uma empresa fala em “produzir celulose”, ela se refere à polpa celulósica: as fibras da madeira separadas da lignina, lavadas e, em geral, branqueadas. Essa polpa é vendida em fardos de folhas secas (celulose de mercado) ou bombeada direto para a máquina de papel, no caso das fábricas integradas.
A classificação mais usada no mercado é pelo comprimento da fibra. As fibras curtas têm comprimento médio de 0,5 a 1,5 mm e as fibras longas, de 2 a 5 mm, segundo o IPT. O comprimento muda o papel: fibra curta dá maciez, boa formação da folha e opacidade; fibra longa dá resistência ao rasgo e à tração.
Tipos de celulose
A tabela resume os tipos de celulose produzidos no Brasil, a espécie de origem e os principais usos.
| Tipo de celulose | Espécie de origem | Característica | Principais usos |
|---|---|---|---|
| Fibra curta branqueada (BEKP) | Eucalipto (clones de Eucalyptus urophylla × E. grandis e outros) | Fibra de 0,5 a 1,5 mm; maciez, opacidade e boa formação | Papel de imprimir e escrever, papel higiênico, toalha, guardanapo, papéis especiais |
| Fibra longa (branqueada ou não) | Pinus (Pinus taeda, P. elliottii) | Fibra de 2 a 5 mm; alta resistência | Papel kraft, papelão ondulado, sacos industriais, camadas internas do papelcartão |
| Fluff | Principalmente pinus; há versões com mistura de eucalipto | Fibra volumosa, alta absorção e retenção de líquidos | Fraldas infantis e geriátricas, absorventes, produtos de incontinência |
| Solúvel (dissolving pulp) | Eucalipto | Alta pureza de celulose, com baixo teor de hemiceluloses | Fibras têxteis de viscose, modal e liocel; derivados químicos de celulose |
| Pasta de alto rendimento (mecânica) | Eucalipto e pinus | Rendimento acima de 85%; mantém parte da lignina | Papelcartão, papel de imprensa, embalagens |
Celulose de fibra curta
É o carro-chefe do Brasil. Em 2024, a fibra curta somou 22,5 milhões de toneladas dos 25,5 milhões produzidos no país, segundo o Relatório Anual 2025 da IBÁ. Vem quase toda de clones de eucalipto, colhidos com cerca de 7 anos. A escolha da espécie e do clone muda o rendimento da polpa, como mostra o guia de tipos de eucalipto e seus usos.
Celulose de fibra longa
Produzida a partir do pinus, plantado sobretudo no Sul do país. Em 2024 foram 2,5 milhões de toneladas no Brasil (IBÁ). A maior parte segue para embalagens de papel kraft e papelão, em fábricas integradas que fazem a celulose e o papel no mesmo lugar.
Celulose fluff
É uma celulose desenvolvida para absorver e reter líquidos. Sai da fábrica em bobinas e é desfibrada na indústria de higiene para formar o miolo de fraldas e absorventes. No Brasil, a Klabin fabrica fluff de fibra longa e lançou uma versão que combina fibras de pinus e de eucalipto.
Celulose solúvel
Também chamada de celulose para dissolução, passa por um cozimento que remove a maior parte das hemiceluloses. O resultado é dissolvido e transformado em fios de viscose, modal e liocel, usados em roupas. A Bracell, em Lençóis Paulista (SP), e a LD Celulose, em Indianópolis (MG), são produtoras brasileiras desse tipo.
Como a celulose é produzida: o processo kraft
Há três famílias de processo. No mecânico, a madeira é desfibrada por atrito e o rendimento passa de 85%. No químico, os cavacos são cozidos com reagentes a cerca de 170 °C em vasos pressurizados (digestores) e o rendimento fica perto de 50%. O semiquímico combina os dois, com rendimento de 60% a 85% (IPT). O processo químico kraft, também chamado de sulfato, é o mais usado no Brasil.

1. Preparo da madeira
As toras chegam do campo, passam pelo descascador e vão para o picador, que as reduz a cavacos de tamanho padronizado. Cavaco uniforme cozinha por igual, e isso reduz a perda de fibra e o consumo de reagentes.
2. Cozimento (polpação)
No digestor, os cavacos são cozidos com o licor branco, uma solução de hidróxido de sódio e sulfeto de sódio, em temperatura e pressão altas. O licor dissolve a lignina, a “cola” que une as fibras, e libera a celulose. Sai do digestor a polpa marrom e o licor preto, que carrega a lignina dissolvida.
3. Lavagem e depuração
A polpa é lavada para separar o licor preto e passa por peneiras que retiram nós, cavacos mal cozidos e impurezas. Muitas fábricas fazem aqui uma pré-deslignificação com oxigênio, que reduz o uso de químicos no branqueamento.
4. Branqueamento ECF
O branqueamento remove a lignina residual e deixa a polpa branca. No Brasil predomina a sequência ECF (sigla em inglês para “livre de cloro elementar”), em que o agente principal é o dióxido de cloro, combinado com estágios de extração alcalina, oxigênio e peróxido de hidrogênio. O cloro gasoso, usado no passado, saiu do processo por gerar compostos organoclorados.
5. Secagem e enfardamento
A polpa branqueada forma uma manta contínua na máquina de secagem, perde água em prensas e secadores e é cortada em folhas. As folhas são empilhadas em fardos, que seguem por ferrovia ou rodovia até os portos. Nas fábricas integradas, a polpa vai úmida para a máquina de papel.
6. Recuperação química e energia
O licor preto é concentrado em evaporadores e queimado na caldeira de recuperação. A queima gera vapor e energia elétrica para a fábrica e produz um fundido de sais de sódio. Na caustificação e no forno de cal, esses sais voltam a ser licor branco, que retorna ao digestor. Esse ciclo fechado é o que torna o kraft viável econômica e ambientalmente.
Para que serve a celulose
A maior parte vira papel, mas a lista de produtos é longa:
- papéis de imprimir e escrever, papelcartão e papel de embalagem;
- papéis sanitários (tissue): papel higiênico, toalha e guardanapo;
- fraldas, absorventes e lenços umedecidos (celulose fluff);
- tecidos de viscose, modal e liocel (celulose solúvel);
- derivados como a celulose microcristalina, usada como excipiente de comprimidos, e espessantes de alimentos;
- embalagens que substituem plástico, como copos e canudos de papel.
Os papéis brasileiros, do kraft ao tissue, saem de fábricas espalhadas por vários estados; a lista das principais está no post sobre fábricas de papel no Brasil.
Produção de celulose no Brasil: dados de 2024 e 2025
O Brasil é o segundo maior produtor de celulose do mundo, atrás dos Estados Unidos (48 milhões de toneladas), e o maior exportador, segundo o Relatório Anual 2025 da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ). Em 2025, a produção bateu novo recorde.
| Indicador | 2024 | 2025 | Fonte |
|---|---|---|---|
| Produção de celulose | 25,5 milhões de t | 29,4 milhões de t (recorde) | IBÁ, Relatório Anual 2025 e Boletim Mosaico |
| Fibra curta / fibra longa / alto rendimento | 22,5 / 2,5 / 0,5 milhões de t | sem detalhamento até a publicação | IBÁ, Relatório Anual 2025 |
| Exportação de celulose | 18,6 milhões de t | 20,7 milhões de t (+11,6%) | IBÁ |
| Mercado interno | 7,0 milhões de t | 8,9 milhões de t (consumo aparente) | IBÁ |
| Principais destinos | China (43,6%) e Europa (26,7%) | China segue em 1º lugar | IBÁ / Comex Stat |
| Produção de papel | 11,3 milhões de t | 11,3 milhões de t | IBÁ |
| Área de árvores plantadas | 10,52 milhões de ha (8,1 milhões de eucalipto) | não divulgado até a publicação | IBÁ, Relatório Anual 2025 |
Observação: o Boletim Mosaico, de onde vêm os números de 2025, usa uma base de 2024 revisada (27,5 milhões de toneladas), por isso o crescimento informado pela IBÁ para 2025 é de 6,9%.
O crescimento é visível quando se olha para trás. Em 2016, o país produziu 18,8 milhões de toneladas, das quais 16,2 milhões de fibra curta, e exportou 69% do volume, como mostra o gráfico da IBÁ daquele ano. Em nove anos, a produção subiu mais de 55%.

A base de tudo isso é a floresta plantada. Em 2024, a produtividade média do eucalipto no Brasil foi de 34,4 m³ por hectare por ano, com idade média de corte de 6,8 anos, e a indústria de celulose e papel detinha 38% da área plantada do país (IBÁ). O manejo desses plantios, do viveiro ao corte, é assunto da silvicultura.
Fábricas novas de celulose no Brasil
O setor inaugura em média uma nova fábrica a cada ano e meio, segundo a IBÁ. O eixo da expansão é o Mato Grosso do Sul, que respondeu por 80% dos 234 mil hectares de florestas acrescentados em 2024. Os projetos mais recentes:
- Suzano, Ribas do Rio Pardo (MS): entrou em operação em julho de 2024, com capacidade de 2,55 milhões de toneladas por ano. É a maior fábrica de celulose em linha única do mundo (IBÁ e Governo de MS).
- Arauco, Projeto Sucuriú, Inocência (MS): em construção, com capacidade prevista de 3,5 milhões de toneladas de fibra curta por ano e início de operação previsto para o fim de 2027, segundo a empresa.
- Bracell, Bataguassu (MS): fábrica de celulose kraft e solúvel com licença prévia aprovada em dezembro de 2025 e investimento estimado em R$ 16 bilhões (Governo de MS).
- CMPC, Projeto Natureza, Barra do Ribeiro (RS): nova fábrica em licenciamento ambiental, com audiência pública realizada em janeiro de 2026 e operação prevista para 2029.
Para comparação, em 2018 as empresas associadas à IBÁ investiram R$ 3,9 bilhões em florestas e R$ 2,4 bilhões nas fábricas. A lista completa das companhias, com capacidade e localização, está no post sobre as maiores empresas de papel e celulose do Brasil.

Nanocelulose e biorrefinaria: o que vem depois do papel
A nanocelulose é a celulose separada em fibrilas ou cristais com pelo menos uma dimensão na escala do nanômetro. Ela combina alta resistência mecânica, baixa densidade, transparência e biodegradabilidade, e é estudada para filmes de embalagem, aditivos de tintas, cosméticos e materiais compostos. O obstáculo ainda é o custo de abrir a fibra por processos mecânicos ou químicos.
A ideia de biorrefinaria aproveita o fato de que a fábrica de celulose já é uma planta química: a lignina, as hemiceluloses e os resíduos florestais podem virar combustíveis, químicos e materiais, ao lado da polpa.
Como trabalhar no setor de celulose
O setor de árvores cultivadas empregou diretamente 717,9 mil pessoas em 2024, recorde da série, e 2,8 milhões somando os empregos indiretos (IBÁ). As vagas se dividem em três frentes:
- Floresta: viveiro e clonagem, silvicultura, inventário florestal, melhoramento genético, proteção contra pragas e incêndios, colheita e logística de madeira.
- Indústria: pátio de madeira, polpação, branqueamento, recuperação e utilidades, máquina de secagem ou de papel, controle de qualidade, manutenção e meio ambiente.
- Gestão e pesquisa: planejamento florestal, geotecnologias, P&D de produtos, segurança do trabalho e certificação.
As formações mais procuradas são engenharia florestal, engenharia química, química, engenharia mecânica e elétrica e cursos técnicos ligados a celulose e papel. A concentração de fábricas em MS, SP, MG, BA, ES e no Sul define onde está a maior parte das oportunidades. Só a obra do Projeto Sucuriú deve ocupar 14 mil trabalhadores no pico e 6 mil pessoas na operação, segundo a Arauco.
Quem já atua na área e quer dominar as etapas da polpação ao papel, com indicadores de qualidade e eficiência, pode se especializar na pós-graduação em Tecnologia da Produção de Celulose e Papel da AgroPós, em formato EAD.
Perguntas frequentes
De onde vem a celulose?
A celulose vem da parede celular das plantas. Na indústria brasileira, ela é extraída quase toda da madeira de árvores plantadas: eucalipto, que fornece a fibra curta, e pinus, que fornece a fibra longa. Também há celulose no algodão, no bambu, no bagaço de cana e em fibras como sisal e juta.
Qual árvore produz celulose?
Toda árvore tem celulose, mas no Brasil a produção comercial usa principalmente o eucalipto, com clones do híbrido Eucalyptus urophylla × E. grandis, e o pinus, com Pinus taeda e P. elliottii. Em 2024, o país tinha 8,1 milhões de hectares de eucalipto e 1,9 milhão de hectares de pinus, segundo a IBÁ.
Qual é a fórmula da celulose?
A fórmula da celulose é (C6H10O5)n, em que n é o número de unidades de glicose anidra na cadeia, chamado grau de polimerização. Cada unidade tem massa molar de cerca de 162 g/mol, e as unidades se ligam por ligações glicosídicas β-1,4, formando uma cadeia linear.
Qual a diferença entre celulose de fibra curta e fibra longa?
A fibra curta vem do eucalipto e mede de 0,5 a 1,5 mm; dá maciez e boa formação, por isso é usada em papel higiênico e papel de imprimir. A fibra longa vem do pinus, mede de 2 a 5 mm e dá resistência, sendo usada em papel kraft, sacos e papelão.
Para que serve a celulose?
Serve principalmente para fabricar papel: de imprimir, de embalagem, papelcartão e papéis sanitários. A celulose fluff vai para fraldas e absorventes, a solúvel vira tecido de viscose, e derivados de celulose entram em comprimidos, alimentos e tintas. Na planta, a função da celulose é dar rigidez à parede celular.
O Brasil é o maior produtor de celulose do mundo?
O Brasil é o segundo maior produtor, atrás dos Estados Unidos, e o maior exportador de celulose do mundo. Em 2025, produziu 29,4 milhões de toneladas e exportou 20,7 milhões, recordes da série, segundo a IBÁ. A China é o principal destino.
Fontes consultadas
- IBÁ – Relatório Anual 2025 (dados de 2024)
- IBÁ – Boletim Mosaico, dados de janeiro a dezembro de 2025 (publicado na revista O Papel, março de 2026)
- IPT – Produção de celulose e papel (comunicação técnica 179350, 2024)
- Governo de Mato Grosso do Sul – início da operação da fábrica da Suzano em Ribas do Rio Pardo
- Arauco – Projeto Sucuriú
- Semadesc-MS – licença prévia da fábrica da Bracell em Bataguassu (dez. 2025)
- Governo do Rio Grande do Sul – audiência pública do Projeto Natureza (CMPC)
- Klabin – produtos (celulose fibra curta, longa e fluff)



