Saturação por bases (V%) é a porcentagem da CTC a pH 7 do solo ocupada pelas bases trocáveis: cálcio, magnésio, potássio e sódio. Calcula-se por V% = SB × 100 ÷ CTC. Solos com V% abaixo de 50% são chamados distróficos (pobres em bases), e é a partir do V% que se calcula a dose de calcário na calagem.
Aqui você encontra as fórmulas da soma de bases, da CTC e do V%, um exemplo resolvido com laudo real, a tabela de interpretação, a fórmula da necessidade de calagem e a saturação por bases desejada para cada cultura, com fonte.
O que é saturação por bases do solo
As partículas de argila e a matéria orgânica têm cargas negativas que seguram cátions na superfície. O conjunto dessas cargas é a capacidade de troca de cátions, a CTC do solo. Parte dessas cargas está ocupada por bases (Ca²⁺, Mg²⁺, K⁺ e Na⁺), que são nutrientes, e parte por acidez (H⁺ e Al³⁺).
A saturação por bases mostra a proporção “boa” dessa ocupação. V% alto indica solo com mais nutrientes trocáveis e menos acidez; V% baixo indica solo ácido, com cargas tomadas por hidrogênio e alumínio. Por isso o V% aparece em todo laudo de análise química, ao lado da soma de bases (SB), da CTC efetiva (t), da CTC a pH 7 (T) e da saturação por alumínio (m%).
O termo técnico é “saturação por bases”. “Saturação de bases” é a forma popular e se refere à mesma coisa.
Fórmulas: soma de bases, CTC e V%
Todos os valores precisam estar na mesma unidade, cmolc/dm³ (igual a meq/100 cm³). Como o potássio costuma vir em mg/dm³, converta antes:
K (cmolc/dm³) = K (mg/dm³) ÷ 391
Na (cmolc/dm³) = Na (mg/dm³) ÷ 230
Soma de bases: SB = Ca + Mg + K + Na
CTC a pH 7: T = SB + (H + Al)
CTC efetiva: t = SB + Al
Saturação por bases: V% = SB × 100 ÷ T
Saturação por alumínio: m% = Al × 100 ÷ t
Quando o laboratório não determina sódio, a soma de bases usa só Ca, Mg e K, como fazem as publicações da Embrapa para solos do Cerrado.
Exemplo resolvido: cálculo da saturação por bases com laudo
O laudo abaixo traz duas glebas. Vamos refazer as contas da gleba 1.

- Dados da gleba 1: K = 98,63 mg/dm³; Ca = 1,58; Mg = 0,20; Al = 0,20; H+Al = 4,60 cmolc/dm³.
- Converter o potássio: 98,63 ÷ 391 = 0,25 cmolc/dm³.
- Soma de bases: SB = 1,58 + 0,20 + 0,25 = 2,03 cmolc/dm³.
- CTC a pH 7: T = 2,03 + 4,60 = 6,63 cmolc/dm³.
- Saturação por bases: V% = 2,03 × 100 ÷ 6,63 = 30,6%.
- CTC efetiva e saturação por alumínio: t = 2,03 + 0,20 = 2,23 cmolc/dm³; m% = 0,20 × 100 ÷ 2,23 = 9%.
Os resultados batem com o laudo (SB 2,03; T 6,63; V 30,66%; m 8,97%). Na gleba 2, a mesma conta dá SB 2,28, T 6,48 e V 35%.
Como interpretar o V% na análise de solo
O valor de referência muda com a CTC do solo e com a cultura. A Embrapa Soja usa esta tabela para soja (camada de 0 a 20 cm):
| Nível | Solos com CTC menor que 5 cmolc/dm³ | Solos com CTC de 5 cmolc/dm³ ou mais |
|---|---|---|
| Baixo | V abaixo de 35% | V abaixo de 55% |
| Médio | V de 35% a 55% | V de 55% a 70% |
| Alto | V acima de 55% | V acima de 70% |
Fonte: Embrapa Soja, Tecnologias de produção de soja (2020).
Três referências ajudam na leitura:
- 50% separa eutrófico de distrófico. No Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (Embrapa), solo eutrófico tem V% de 50% ou mais; distrófico, abaixo de 50%.
- No Cerrado, o rendimento estabiliza entre 40% e 60%. A Embrapa Cerrados mostra que a produtividade de soja, milho, trigo e feijão de sequeiro sobe até 40% de V, fica estável entre 40% e 60% e cai acima de 60%, quando o pH em água passa de 6,3 e pode faltar zinco, cobre, ferro e manganês.
- O alumínio completa a leitura. Para solos do Cerrado, saturação por alumínio abaixo de 20% é baixa, de 20% a 60% é alta e acima de 60% é muito alta (Embrapa Cerrados).
No exemplo, a gleba 1 tem CTC de 6,63 cmolc/dm³ e V de 30,6%: nível baixo pela tabela da Embrapa Soja e abaixo de qualquer meta de calagem.
A CTC também tem sua interpretação, que depende da textura do solo, porque argila e matéria orgânica são as fontes de carga:
| Textura | CTC baixa | Média | Adequada | Alta |
|---|---|---|---|---|
| Arenosa | abaixo de 3,2 | 3,2 a 4,0 | 4,1 a 6,0 | acima de 6,0 |
| Média | abaixo de 4,8 | 4,8 a 6,0 | 6,1 a 9,0 | acima de 9,0 |
| Argilosa | abaixo de 7,2 | 7,2 a 9,0 | 9,1 a 13,5 | acima de 13,5 |
| Muito argilosa | abaixo de 9,6 | 9,6 a 12,0 | 12,1 a 18,0 | acima de 18,0 |
CTC a pH 7 em cmolc/dm³, solos do Cerrado, camada de 0 a 20 cm. Fonte: Embrapa Cerrados, “Cerrado: correção do solo e adubação”.
Necessidade de calagem pelo método da saturação por bases
O método eleva a saturação por bases do valor atual (V1) até o valor desejado para a cultura (V2). Ele teve origem em São Paulo e é um dos mais usados no Sudeste e no Centro-Oeste. A fórmula dá toneladas por hectare de calcário com PRNT 100%, para a camada de 0 a 20 cm:
NC (t/ha) = (V2 − V1) × T ÷ 100 × f
f = 100 ÷ PRNT do calcário
Em que V2 é a saturação por bases desejada (%), V1 a saturação atual (%), T a CTC a pH 7 (cmolc/dm³) e PRNT o poder relativo de neutralização total do calcário, explicado no texto sobre PRNT do calcário.
Para culturas de sequeiro no Cerrado, em que V2 = 50%, a Embrapa Cerrados simplifica a conta:
NC (t/ha) = (T ÷ 2 − SB) × f
Exemplo resolvido (gleba 1, T = 6,63; V1 = 30,66%):
- V2 = 60%: NC = (60 − 30,66) × 6,63 ÷ 100 = 1,95 t/ha de calcário PRNT 100%. Com calcário de PRNT 80%: 1,95 × 100 ÷ 80 = 2,43 t/ha.
- V2 = 50% (atalho do Cerrado): NC = (6,63 ÷ 2 − 2,03) = 1,29 t/ha com PRNT 100%, ou 1,61 t/ha com PRNT 80%.
As doses valem para incorporar o calcário na camada de 0 a 20 cm. Para outra profundidade, a Embrapa orienta ajustar a dose à camada a ser corrigida (por exemplo, multiplicar por 1,5 para 0 a 30 cm). No plantio direto consolidado, a amostragem e a dose seguem critérios próprios do boletim regional.
A Embrapa Cerrados lembra ainda que a relação Ca:Mg do solo deve ficar entre 1:1 e 10:1, com pelo menos 0,5 cmolc/dm³ de Mg; por isso, em solos pobres em magnésio, dá-se preferência ao calcário dolomítico ou magnesiano. A escolha do corretivo também considera o preço por tonelada corrigido para PRNT 100%, posto na fazenda.
Tabela de saturação por bases desejada (V2) por cultura
| Cultura ou sistema | V2 desejado | Fonte |
|---|---|---|
| Soja no Paraná e em São Paulo | 70% | Embrapa Soja (2020) |
| Soja em Mato Grosso do Sul | 60% | Embrapa Soja (2020) |
| Soja nos demais estados do Brasil Central (solos de Cerrado) | 50% | Embrapa Soja (2020) |
| Culturas anuais de sequeiro no Cerrado (soja, milho, trigo, feijão) | 50% | Embrapa Cerrados |
| Culturas anuais irrigadas no Cerrado | 60% | Embrapa Cerrados |
| Milho | 50% a 60% | Embrapa Milho e Sorgo |
| Pastagens pouco exigentes (Brachiaria decumbens, B. humidicola, B. ruziziensis, Andropogon gayanus) | 30% a 35% | Embrapa Cerrados (Circular Técnica 37) |
| Pastagens exigentes (B. brizantha cv. Marandu, Panicum maximum cv. Tanzânia-1, Mombaça e outras) | 40% a 45% | Embrapa Cerrados (Circular Técnica 37) |
| Leucena e soja perene | 45% a 50% | Embrapa Cerrados (Circular Técnica 37) |
| Pastagens muito exigentes (capim-elefante, Coast-cross, Tifton) | 50% a 60% | Embrapa Cerrados (Circular Técnica 37) |
Para café, citros, cana-de-açúcar, hortaliças e frutíferas, use o valor do boletim de recomendação do seu estado (em São Paulo, o Boletim 100 do Instituto Agronômico; em Minas Gerais, a 5ª Aproximação da Comissão de Fertilidade do Solo do Estado). Os valores mudam entre estados porque os solos e os sistemas de produção são diferentes.
Saturação por bases, CTC e pH: como se relacionam

A figura mostra de onde vêm as cargas do solo: argila e matéria orgânica, unidas em agregados com água e ar entre eles. Nas cargas negativas desses coloides ficam presos os cátions. Quando o solo acidifica (chuva, absorção pelas plantas, adubos amoniacais), o H⁺ e o Al³⁺ tomam o lugar do Ca, Mg e K, e o V% cai.
Por isso V% e pH andam juntos: quanto mais ácido o solo, menor a saturação por bases. O calcário inverte o processo. Ao se dissolver, ele libera Ca²⁺ e Mg²⁺ e forma bicarbonato, que gera hidroxilas (OH⁻). As hidroxilas neutralizam o H⁺ e precipitam o alumínio tóxico como hidróxido de alumínio, insolúvel. As cargas liberadas passam a reter cálcio e magnésio, e o V% sobe.
Dois solos com o mesmo V% podem ter fertilidade muito diferente. Um solo arenoso com T = 3 cmolc/dm³ e V de 60% tem 1,8 cmolc/dm³ de bases; um argiloso com T = 12 cmolc/dm³ e o mesmo V tem 7,2 cmolc/dm³. Por isso o V% deve ser lido junto com a CTC, a textura e a estrutura do solo, que influencia a infiltração e o aprofundamento das raízes.
Diferença entre SB, t, T, V e m na análise de solo
| Sigla | Nome | Fórmula | O que indica |
|---|---|---|---|
| SB | Soma de bases | Ca + Mg + K + Na | Quantidade total de bases trocáveis (nutrientes catiônicos) |
| t | CTC efetiva | SB + Al | Cargas ocupadas no pH atual do solo |
| T | CTC a pH 7 | SB + (H + Al) | Capacidade total do solo de reter cátions, se fosse corrigido a pH 7 |
| V% | Saturação por bases | SB × 100 ÷ T | Proporção da CTC ocupada por bases; base do cálculo de calagem |
| m% | Saturação por alumínio | Al × 100 ÷ t | Risco de toxidez de alumínio para as raízes |
Depois de corrigir a acidez, o passo seguinte é a adubação. A tabela de adubação NPK e o guia de cálculo de adubo por hectare mostram como transformar o laudo em dose. Para entender por que o V% varia tanto de região para região, veja os tipos de solo do Brasil.
Perguntas frequentes
O que é saturação por bases do solo?
É a porcentagem da capacidade de troca de cátions a pH 7 (T) ocupada por cálcio, magnésio, potássio e sódio. Indica o quanto o solo está “carregado” de nutrientes catiônicos em vez de acidez. Valores abaixo de 50% caracterizam solos distróficos, e o V% é usado para calcular a calagem.
Qual é a fórmula da saturação por bases?
V% = SB × 100 ÷ T, em que SB é a soma de bases (Ca + Mg + K + Na) e T é a CTC a pH 7 (SB + H + Al), todos em cmolc/dm³. O potássio em mg/dm³ deve ser dividido por 391 antes de entrar na soma.
O que é soma de bases na análise de solo?
É a soma dos teores trocáveis de cálcio, magnésio, potássio e, quando analisado, sódio, em cmolc/dm³. Aparece no laudo como SB ou S e serve para calcular a CTC a pH 7, a CTC efetiva e a saturação por bases.
Qual a saturação por bases ideal?
Depende da cultura e da região. A Embrapa usa 50% para culturas anuais de sequeiro no Cerrado, 60% em sistemas irrigados, 70% para soja no Paraná e em São Paulo, de 50% a 60% para milho e de 30% a 60% para pastagens, conforme a exigência da forrageira.
Como calcular a necessidade de calagem pela saturação por bases?
Use NC (t/ha) = (V2 − V1) × T ÷ 100 e corrija pelo PRNT: multiplique por 100 e divida pelo PRNT do calcário. Exemplo: T = 6,63, V1 = 30,66% e V2 = 60% dão 1,95 t/ha com PRNT 100%, ou 2,43 t/ha com calcário de PRNT 80%.
O que significa V na análise de solo?
V (ou V%) é a saturação por bases. Ele aparece no laudo ao lado de SB, t, T e m. Um V de 30% significa que só 30% das cargas da CTC a pH 7 estão ocupadas por bases; o restante está com hidrogênio e alumínio.
Saturação por bases na prática profissional
Ler o V% junto com CTC, textura e alumínio e transformar isso em dose de calcário e adubo é rotina de quem trabalha com fertilidade do solo. Esse raciocínio é aprofundado na pós-graduação em Solos e Nutrição de Plantas da AgroPós.
Fontes consultadas
- Embrapa Cerrados: Cerrado: correção do solo e adubação, 2ª ed.
- Embrapa Soja: Tecnologias de produção de soja (2020)
- Embrapa Milho e Sorgo: Cultivo do milho, calagem e gessagem
- Embrapa Cerrados: Calagem e adubação para pastagens na região do Cerrado (Circular Técnica 37)
- Embrapa Solos: Sistema Brasileiro de Classificação de Solos




