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Foto: Pampulha

Há que se fazer distinção entre habilidades e habilitação. Habilidades são aptidões adquiridas e são associadas aos conhecimentos teóricos e práticos. Habilidades são aprendidas e desenvolvidas e são inerentes a qualquer pessoa que se disponha a adquiri-las por meio de cursos teóricos ou por meio de aprendizagens práticas. Habilidades estão diretamente relacionadas com artes e ofícios, não dependentes, necessariamente, de uma escola. Assim, como exemplo, podemos citar habilidades nos ofícios de pedreiro, marceneiro e motorista. Também podemos pensar em habilidades mais estruturadas como é o caso de computação e paisagismo.

Habilitações são credenciamentos fornecidos segundo demonstrações de habilidades. Embora as habilitações dependam das habilidades de quem as deseja, elas são dependentes, também, de terceiros que as fornecerão. Dizem respeito a um reconhecimento das habilidades, normalmente por meio de uma demonstração precisa das habilidades. Nesse caso, extrapolados os meros aspectos das artes e ofícios, pois saber fazer não é suficiente, tendo-se que comprová-lo. Assim, uma pessoa pode ser excelente motorista, mas só será habilitado após comprová-lo ao DETRAN que expedirá uma carta de habilitação para tal.

Deixando de lado os aspectos relacionados às artes e ofícios e adentrando os aspectos de profissionalismo liberal superior, observamos que habilidade se relaciona com capacidade e que habilitação se relaciona com competência. Assim é que as universidades capacitam os profissionais enquanto os conselhos regionais dão competência para a atuação profissional. É importante ressaltar que a competência nada tem a ver com o saber fazer, mas, apenas, com a regulamentação para fins de responsabilidade técnica. Por isso, podemos dizer que uma pessoa com habilidades paisagísticas, sem credenciamento, pode ter capacidade para desenvolver excelentes projetos, mas não poderá ser responsabilizada tecnicamente. Daí, para que se possa responsabilizar alguém, em juízo, inclusive, é preciso que haja competência e não apenas capacidade.

1. INTERDISCIPLINARIDADE¹

O profissionalismo no Brasil é regulamentado, normalmente, por conselhos regionais segundo as aptidões de cada profissão e de conformidade com a área de conhecimento do profissional. Assim é que a arquitetura e a engenharia têm seu conselho, a biologia tem o seu conselho, a advocacia tem o seu conselho (ou a sua ordem), bem como as demais profissões. Essa compartimentalização funcionou até hoje dentro de uma visão mecanicista. Quando começamos a observar os conhecimentos holisticamente notamos que essa compartimentalização não faz nenhum sentido.

¹Algumas tentativas em nível de aprendizagem estão em Gonçalves (1995)

1.1 O NOVO CONCEITO DE PAISAGEM²

O paradigma holístico ou sistêmico tem-nos obrigado a enxergar o mundo de modo diferente e a paisagem, vista antigamente como mero cenário adquiriu conotações muito mais abrangentes quando os aspectos ambientais e a qualidade de vida passaram a ser os elementos norteadores do novo projeto, com o homem ocupando a posição principal. Modernamente, novas formas de lazer passivo como a televisão e a Internet e novas opções de lazer ativo como os shoppings têm subtraído as pessoas dos locais públicos e, do paisagista, exige-se, por conseguinte, um conhecimento muito mais acurado. Esse conhecimento transita por áreas diversas como psicologia, geografia, urbanismo, agronomia, engenharia e diversos outros. Então, como trabalhar a paisagem holisticamente?

²Outras experiências com aprendizagem interdisciplinar em Gonçalves (1998).

1.2 O INTERPROFISSIONALISMO

Uma das maneiras de trabalhar o paisagismo levando em consideração todos esses conhecimentos é buscar uma interdisciplinaridade profissional na projetação. Essa é a maneira como os profissionais vêm procurando resolver o problema. Escritórios de paisagismo e prefeituras de médio e grande porte procuram formar equipes multidisciplinares onde diversos profissionais se debruçam sobre o problema paisagístico, cada um contribuindo da melhor forma possível³ (Figura 1). Entretanto, pequenos escritórios, pequenas prefeituras ou profissionais liberais não conseguem essa forma de trabalho uma vez que o processo é por demais oneroso quando o projeto é de pequeno porte. No caso de prefeituras, então, podemos observar que as de pequeno porte são maioria. Então, para esses casos, há que se investir no profissional, isoladamente.

³Essa multidisciplinaridade foi fonte de trabalho de aluno que passou pela experiência didática (Carminatti, 1998).

Figura 1 – Interdisciplinaridade por meio do multiprofissionalismo

1.3 O PROFISSIONAL HOLÍSTICO

A outra maneira de trabalhar o paisagismo levando em consideração todos os conhecimentos é na formação de um profissional com visão global. Dessa forma, as universidades deveriam estar fornecendo habilidades em todas as áreas do conhecimento que de certa forma contribuem para o projeto paisagístico. Noções de psicologia, de geografia, de agronomia, de engenharia, de arquitetura e muitas outras, deveriam estar sendo fornecidas ao futuro paisagista para que possa trabalhar a paisagem holisticamente quando o profissional tiver de fazê-lo sozinho (Figura 2). É importante ressaltar que esse conhecimento não elimina a primeira opção de um trabalho multiprofissional.

Figura 2 – Interdisciplinaridade por meio do conhecimento sistêmico

 

2. HABILIDADES

Infelizmente não é o que vivenciamos. Quem capacita o profissional de paisagismo no Brasil? Embora todas as profissões mencionadas tenham muito a contribuir para a melhor concepção da paisagem, apenas três cursos capacitam, oficialmente, o nosso paisagista: a Arquitetura, a Agronomia e a Engenharia Florestal. Se analisarmos os programas dos três cursos (Quadro 1), podemos observar que o curso de Arquitetura prima pelo planejamento e pelo desenho com um enfoque todo especial para a paisagem urbana. O curso de Engenharia Florestal, embora tenha um programa mais abrangente, enfatiza sobremaneira a floresta urbana como um componente da paisagem citadina enfocando, de certa forma, a paisagem regional, principalmente por associação com os outros tipos de floresta. O curso de Agronomia, por sua vez, dedica grande parte de seu programa ao estudo da floricultura e do jardinismo, perdendo, assim, o enfoque mais globalizado da paisagem regional.

Quadro 1 – Programas de paisagismo por cursos: ENEPEAs. Consultados o do Rio de janeiro (1994) e o de São Paulo (1995) | UFV (2000) Conforme ementas dos cursos de engenharia florestal e agronomia | GONÇALVES (1995)

Para completar, podemos observar que em termos de tempo de dedicação todos os cursos deixam a desejar (Quadro 2). Na Arquitetura, embora os ENEPEAs (Encontros Nacionais sobre o Ensino de Paisagismo nas Escolas de Arquitetura) tenham sugerido uma carga horária de 180 horas, podemos ver que a disciplina de paisagismo tem, normalmente, 60 horas, valendo apenas 3 créditos. A sugestão proposta por diversas escolas é que se use de “pontes temáticas” que é a abordagem de paisagismo em outras disciplinas do curso, na forma de exemplos, quando o assunto assim o permitir. Na Engenharia Florestal a disciplina tem normalmente 60 horas, valendo 3 créditos, embora possa-se chegar, em alguns casos a 72 horas semestrais. Aqui não existem pontes temáticas, mas, algum outro conhecimento é dado por disciplinas afins, principalmente as tidas como pré-requisito. É importante salientar, no entanto, que parte do tempo é normalmente dedicada à arborização urbana. No curso de Agronomia a disciplina  também é de 60 horas com 3 créditos e o tempo total é dividido entre paisagismo, floricultura e jardinocultura, com um peso bem maior para floricultura.

Quadro 2 – ENEPEAs | UFV (2000) | GONÇALVES (2000) OP. CIT.

Então, a pergunta que fica no ar é essa: podemos chamar de paisagista um profissional que está sendo capacitado com menos de 60 horas em uma profissão com tamanha exigência interdisciplinar?

Leia também: Arborização e Áreas Verdes Urbanas: entenda como funcionam as análises através de índices

3. HABILITAÇÃO

Mais crítico que a capacitação é o fato de se estar dando habilitação (competência) para esse profissional. A visão mecanicista tem permitido essa competência uma vez que o nosso paisagista é formado por um dos três cursos citados,  que pertencem (pertenciam)* a um mesmo Conselho. Na visão holística, entretanto, defendemos um profissional com conhecimentos mais abrangentes, inclusive em outras áreas. Aí, como ficará a questão da competência quando a geografia, a psicologia e a biologia, por exemplo, extrapolam os limites de atuação do atual Conselho?

3.1 ROTULAÇÕES

Resvala-se, nesse caso, para posições mais conflitantes e mais difíceis quando o corporativismo começa a forçar posições contraditórias; quando a visão mecanicista manda que se atue pela competição enquanto a visão holística manda que se atue pela cooperação.

Nos Estados Unidos da América a Associação de Arquitetos Paisagistas – ASLA congrega esses profissionais, mas possa ser que se justifique pela existência dessa profissão com uma formação apropriada. No Brasil, a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas – ABAP tenta congregar os profissionais que não existem nem por tempo de formação nem por conteúdo programático.

Para se defender a profissão de “Arquiteto Paisagista” será necessário um programa mais abrangente na formação desse profissional e não meramente pelo fato de haver uma disciplina dentro do curso de Arquitetura. A prevalecer essa ideia, poderemos reivindicar, também, o “Engenheiro Agrônomo Paisagista” ou o “Engenheiro Florestal Paisagista”.

Na verdade, o que se observa é que a profissão requer uma gama tão grande de conhecimentos que ela não deveria estar rotulada (vinculada) a nenhuma das profissões existentes, mas, sim, constituir-se de uma profissão inteiramente nova e independente.

3.2 QUEM TRABALHA O PAISAGISMO NO BRASIL?

Enquanto discussões sobre a capacitação e sobre a competência estão acontecendo, enquanto posições corporativistas estão sendo tomadas e enquanto apenas um Conselho* credencia profissionais, com conhecimentos fora dos seus limites, quem vem trabalhando a paisagem brasileira, principalmente a urbana?

Se fizermos uma análise das estruturas das prefeituras brasileiras em termos de paisagismo vamos encontrar os mais diversos profissionais atuando nessa área (quadro 3). A análise do quadro mostra que o paisagismo se liga a secretarias diferentes conforme o tamanho da cidade: nas cidades de médio porte o paisagismo se liga à Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente e aí há um predomínio do profissional de Ciências Agrárias; nas de grande porte o paisagismo se liga à Secretaria de Planejamento e aí predominam os profissionais de Ciências Exatas. Nas de pequeno porte, na maioria das vezes, o paisagismo está ligado a um setor de Meio Ambiente onde o responsável sequer tem formação superior. Nada se tem contra um cargo meramente político, desde que ele se valha de uma consultoria competente, mas, sabemos, não é o que normalmente acontece.

Quadro 3

*Na verdade hoje existem dois conselhos, já que a Arquitetura se desmembrou do CREA, criando o seu próprio conselho, o CBAU – Conselho Brasileiro de Arquitetura e Urbanismo.

4. UM NOVO PROFISSIONAL

Apontadas as falhas do sistema, o que fazer? Impedir que os profissionais fracamente capacitados atuem no mercado? Abrir competência para todos quantos queiram trabalhar? Difícil é responder a estas questões, mas podemos e devemos defender a formação de um profissional melhor qualificado reivindicando um programa mais abrangente, com uma carga horária mais apropriada. Por programa mais abrangente devemos pensar em um conhecimento mais profundo da vegetação e não apenas o conhecimento de nomes vulgares, de nomes científicos e de famílias botânicas; um conhecimento mais profundo de planejamento e não apenas distribuição de elementos naturais e construídos; um conhecimento mais profundo de espaços e não apenas o físico, mas o social, o psicológico e o político; um conhecimento mais profundo das necessidades, mas não apenas as fisiológicas e pessoais, mas também as psicológicas e as coletivas; um conhecimento mais profundo dos outros tipos de vida, não apenas da humana. É fácil ver que nem a Arquitetura, nem a Engenharia Florestal, nem a Agronomia, sozinhas, podem fornecer esses conhecimentos. Teremos que buscá-los na Geografia, na Psicologia, na Engenharia, na Biologia, dentre outras áreas do conhecimento. Para isso, precisamos de mais tempo. Quatro créditos não são suficientes. Precisamos de, no mínimo, quatro anos. Enquanto isso não acontece devemos estar trabalhando de modo cooperativo e interdisciplinar. Devemos, no entanto, perseguir a formação de um profissional holístico que traga noções de todas essas áreas, sem prejuízo, no entanto, de trabalhos com equipes multiprofissionais.

5. BIBLIOGRAFIA

1 – GONÇALVES, Wantuelfer. Interdisciplinaridade no paisagismo: uma experiência universitária. Viçosa: UFV, 1995. 6p.

2 – GONÇALVES, Wantuelfer. Interdisciplinaridade no paisagis mo: uma experiência universitária. Terceiro Encontro Interdisciplinar sobre o Estudo da Paisagem. Rio Claro: UNESP. 11 a 13 de maio de 1998.

3 – CARMINATTI. Nelson Fábio Ribeiro. Interdisciplinaridade             no paisagismo: uma experiência acadêmica. Viçosa: UFV. 1998. 33p. (monografia de graduação).

4 – GONÇALVES, Wantuelfer. O ensino da arborização urbana no Brasil. Seminário de Florestas Urbanas. Belo Horizonte: CEMIG/SIF. 25 e 26 de outubro de 2000.

5 – Anais dos Encontros Nacionais sobre o Ensino de Paisagismo nas Escolas de Arquitetura (ENEPEAs).

6 – Catálogo de graduação da Universidade Federal de Viçosa, 2000.

7 – GONÇALVES, Wantuelfer.  O ensino da arborização urbana na universidade.  En-contro Nacional de Arborização Urbana, IV. Londrina: SBAU. 11 a 15 de dezembro de 1995.

Este trabalho, originalmente, foi uma palestra apresentada no Primeiro Seminário de Paisagismo Aplicado, promovido pela AMIFLOR – Associação Mineira de Floricultura, em Belo Horizonte nos dias 9 e 10 de dezembro de 2000. Posteriormente ele foi incorporado ao livro de minha autoria intitulado Urbana Paisagem, publicado em 2003, como um dos capítulos. A permanência das situações descritas nesse trabalho justifica a discussão na atualidade.

Wantuelfer Gonçalves
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