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Epidemia em banana e cacau

Desde que a agricultura é praticada, o homem tem de lidar com desafios das mais diversas origens e epidemias na agricultura é uma delas. Adaptabilidade das culturas e condições climáticas adversas, dentre outros fatores, podem reduzir significativamente a produção. Para as culturas da bananeira e cacaueiro, no entanto, nenhuma ameaça é tão séria quanto o ataque de doenças fúngicas. Entretanto, essa não seria a primeira vez na história que nos deparamos com ameaças tão significativas causadas por patógenos na agricultura. Algumas epidemias marcaram a história por levar a consequências sociais desastrosas e até mudanças de hábitos e costumes de povos.

Epidemias históricas

A primeira e mais importante epidemia em plantas no mundo, foi a doença conhecida como requeima da batateira. No século XXVII, a batata era a base alimentar da Irlanda. Embora houvesse uma resistência inicial à adoção desta cultura considerada impura por ser produzida no chão e não mencionada na bíblia, o fato de produzir maior quantidade de alimento por área do que o cultivo de grãos, fez com que os produtores, em sua maioria extremamente pobres, cultivassem a batata como principal fonte alimentar, dependendo desta para o seu sustento e sobrevivência.

Por se tratar de uma espécie introduzida do ‘Novo Mundo’ na Europa, e, portanto, sem inimigos naturais ou patógenos, as batatas cresceram por muitos anos sem problemas sérios. As condições climáticas eram muito favoráveis e o excedente de produção era armazenado em covas rasas para serem utilizados de acordo com a necessidade do produtor. No ano de 1845, no entanto, o clima tornou-se um pouco mais úmido e frio durante várias semanas. As plantas, que até então eram vistosas começaram a apresentar aspecto queimado, apodrecido e finalmente mortas. Assim, os produtores fizeram o possível para colher as batatas e enterrá-las para utilização no próximo inverno.

A situação da epidemia se tornou-se caótica, no entanto, quando no inverno, ao desenterrar as batatas para alimentação, eles encontraram apenas massas sem forma e em decomposição. No ano de 1846, a situação se repetiu, de maneira que 80% da produção deste ano foi perdida, levando a 2 milhões de mortos por fome e um milhão de imigrantes. Este pesadelo ficou 16 anos sem uma explicação, até que no ano de 1861 Anton deBary atribui a requeima da batateira a um microrganismo semelhante a fungo, chamado de Phytophthora infestans, ou do latim “Destruidor de plantas infectante”.

Cacau x fungo Moniliophthora

Atualmente já consumimos mais cacau do que conseguimos produzir. O Brasil, que já foi o segundo maior produtor mundial do fruto é atualmente importador, respondendo no ano de 2018 por menos de 4% da produção mundial e 68% do que é consumido no Brasil.

Até a década de 1980, a região Sul da Bahia gozava de prosperidade econômica devido ao cultivo do cacau. A região respondia por 95% da produção nacional, com área plantada de mais 650 mil hectares. O Brasil era o segundo produtor mundial do fruto.

Essa prosperidade, no entanto, foi por terra em 1989 e anos subsequentes, quando a vassoura-de-bruxa, doença causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa dizimou plantios de mais de 600 mil hectares, em 93 municípios da região, resultando em mais de 250 mil trabalhadores desempregados, que passaram a habitar em manguezais ao longo da costa Sul do estado. Grandes coronéis do cacau, que antes ostentavam cargos políticos de alto prestígio e gozavam de prosperidade econômica, suicidaram-se ao ter de lidar com a nova realidade, ao saberem da presença do fungo em suas lavouras.

O reflexo desta epidemia é sentido na região do cacau até os dias de hoje, da disparada da violência até a mudança de perfil na exploração das terras antes cultivadas com o fruto, que se orgulhavam em ser ambientalmente corretas pela convivência da cultura com mata nativa.

A região tenta até hoje recuperar-se desta epidemia, porém, outro importante fungo, denominado Moniliophthora roreri, chegou à Bolívia em 2018 ameaçando mais uma vez a cultura do cacau no Brasil. As autoridades sanitárias nunca estiveram tão preocupadas e consideram que a entrada desse fungo no nosso território seja apenas uma questão de tempo. O fungo reduz a produção em cerca de 30% mesmo quando medidas de controle são adotadas e para os casos em que não são, as perdas podem chegar a 100%.

Após o declínio da cacauicultura na Bahia, países Africanos como Costa do Marfim e Gana consolidaram-se como maiores produtores mundiais do fruto. Acontece que o nem o fungo Moniliophthora perniciosa e nem Moniliophthora roreri chegaram ao continente africano, fazendo com que as perspectivas futuras em relação à cultura sejam alarmantes.

Bananeira x fungo Fusarium

Nos últimos 20 anos cultivares de banana provenientes do grupo Cavendish, representam 95% de toda banana consumida no mundo. Porém, um patógeno fúngico, Fusarium oxysporum raça 4, descoberto em 1992 no Panamá infecta todas as cultivares deste grupo. O fungo foi detectado mais tarde na Ásia, se tornando a maior ameaça para as plantações da América do Sul e África. Acredita-se que em pouco tempo, o fungo chegará nestes continentes e afetará a produção de bananas em larga escala já que praticamente toda banana plantada atualmente é do grupo Cavendish.

Caso isso aconteça, podemos ter uma repetição do que já ocorreu no passado uma epidemia histórica. No início do século XX, a variedade de bananas conhecida como Gros Michel foi exportada do Caribe e América Central e plantada em diversas partes do mundo em áreas recém desmatadas. Por volta de 1890, foram feitos os primeiros relatos da doença Mal-do-Panamá, na Costa Rica, causado pelo fungo Fusarium oxysporum (raça 1). Isso fez com que o cultivo só fosse possível em novas áreas. Com o passar dos anos e indisponibilidade de áreas virgens, os custos com a produção aumentaram de tal maneira que, no final da década de 1950, as indústrias de exportação substituíram os plantios por variedades pertencentes ao grupo Cavendish que eram resistentes à raça 1 do fungo.

Atualmente, com a ameaça de uma nova raça do fungo à cultivares do grupo Cavendish a procura por cultivares resistentes tem sido constante, mas até o momento sem sucesso.

Perspectivas futuras

Diante do exposto, assistiremos à extinção destas culturas? A verdade é que desde a epidemia da requeima da batateira muita coisa mudou. O homem com seu entendimento sobre as ameaças conhecidas, pode e tem delineado medidas para lidar com possíveis epidemias. Essas medidas visam inicialmente evitar a disseminação dos patógenos, com medidas como o controle do transito de vegetais e suas partes. Além disso, a medida mais eficiente a fim de evitar futuras perdas é a utilização de materiais resistentes.

Essa estratégia tem sido adotada para o restabelecimento da cacauicultura no Sul da Bahia, pelo uso de porta enxertos resistentes à vassoura de bruxa. Um consórcio formado por vários países produtores de banana foi formado no ano de 2013, a fim de buscar alternativas à variedade Cavendish. Essas alternativas passam por técnicas como cultura de tecidos ou transgenia. Assim, os cientistas lutam contra o tempo em busca de alternativas para evitar a extinção destas culturas.

Nilmara Caires
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